JOELMIR BETING
Realmente, a gente não vive num país. Vive numa cidade. Que é só um bairro.
Marshall McLuhan (1911-1980), sociólogo canadense
Cidades doentes
Aos 450 anos de idade, ainda criança para os padrões da civilização humana, São Paulo carrega crachá de cidade doente. Doença que ainda pode ser reprimida, mas não mais suprimida.
A deformação tornou-se irreversível. Os estudiosos dão à anomalia o rótulo de síndrome da macrocefalia urbana. No conceito da cidade como ''entidade viva'', orgânica, metabólica, essa anomalia pode ser traduzida, ainda em medicinês, por elefantíase patológica. Ou, pior ainda, elefantíase patogênica.
Sim, patogênica: a deformação reproduz aberrações em cadeia.
Fora dos eixos
Há exatamente 30 anos, participei em Milão, pela ''Folha de S.Paulo'', de um evento que não mais se me perdeu pelo nome: Congresso Internacional das Cidades Doentes.
Estava na nota de apresentação do programa oficial: cidade doente é todo e qualquer aglomerado urbano com mais de 1 milhão de habitantes. Doente porque em processo de deseconomia de escala qualquer que seja o nível de gestão dos governantes da vez. Não há Plano Diretor que se sustente no tempo ao sabor dos caprichos políticos e sob o impacto das mudanças econômicas e sociais.
Foi dito por urbanistas, sociólogos e economistas, para um auditório de 47 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, que uma urbe desse porte deixa de ser administrável. Ou por outra: a administração, se competente, resvala para a mera contenção do piorômetro.
Autêntica máquina de enxugar gelo com toalha quente.
E 10 milhões ?
Se administrar 1 milhão é um pesadelo, que tal cercar o frango doido em campo aberto de uma cidade com 10 milhões? E com outros 5 milhões no entorno não menos arrevesado?
Para o economista Marcio Pochmann, secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da prefeitura de São Paulo, já está na hora de se pensar em novo modelo de ''administração metropolitana conjugada'' no figurino dos condados americanos. Estes interpõem-se entre as entidades jurídicas do município e da metrópole que lhe hospeda. Única maneira de resolver os tais ''conflitos de interesse'' políticos no compartilhamento pactuado de recursos irremediavelmente escassos.
Há muito de superposição, paralelismo e desperdício no perímetro físico de regiões metropolitanas.
Tem remédio ?
São Paulo não vislumbra sequer uma luz no túnel institucional do Estado brasileiro. Para cada R$ 1.000 que arrecada por sobre 24% do PIB paulista ou 16% do PIB brasileiro, o retorno não lhe tem passado de R$ 110. Sem entrar no mérito da qualidade dos gastos desses R$ 110 nestes últimos 18 anos de prefeitos eleitos.
Se a cidade que deve ser feita ou refeita é mil vezes maior que a São Paulo que pode ser feita e bem feita, se possível a macrocefalia urbana já enraizada não mais será resolvida.
Dois apagões
Dá para classificar 20 prioridades de São Paulo. Eu prefiro focar duas delas: a do trânsito tetraplégico e a da água em colapso. As coisas nessas duas raias correm de mal a pior.
Apelar ou esperar pelo Tesouro municipal no bagaço é contratar o suicídio paulistano antes de 2010. Só o setor privado teria tamanho tutano se devidamente regulado e motivado.
Sim, também não sei como poderíamos fazer a coisa certa. Mas já sei como teimamos em fazer a coisa errada.





