José Maria de Jesus, aeroviário

Caminho da Índia

Chanceler brasileiro semana sim, semana não, o presidente Luis Inácio Lula da Silva embarca para a Índia neste sábado. Fica lá por cinco dias, desfiando uma agenda pesada.

Na mala, a engenharia diplomática da construção antecipada de grandes alianças estratégicas com a tríade dos emergentes de musculação continental: China, Índia e Rússia.

A viagem à China está marcada para maio. E à Rússia? Em setembro ou outubro.


Escalada

Terceira maior potência econômica do mundo a partir de 2030. Eis a Índia que acaba de decolar no vácuo da China, cotada para quarta potência naquela mesma data. A segunda será a União Européia dos 25. A primeira, devidamente alcalizada a partir do ano que vem, os Estados Unidos. O novo G-7 projetado para 2030 é da revista ''The Economist''. Ela se abasteceu com trabalhos de consultorias do ramo. O grifo do ''ranking'' 2030 vai para a discreta Índia, que então já terá aplicado um chapéu na hoje ruidosa China.

O segundo grifo fica com o Brasil varonil, escalado para a sexta posição, onde já estará fungando no cangote do Japão, na quinta. Fechando o G-7, a Rússia.

Ultrapassagem

Qual é o pulo do gato indiano por sobre o dragão chinês?

Em população, a Índia tende a ultrapassar a China pela curva de 2025. A natalidade da Índia (1 bilhão de habitantes) ainda é livre. A da China (1,3 bilhão) está congelada por decreto marcial: morre um, nasce um.

O PIB per capita da China, no conceito da paridade do poder de compra da moeda (do FMI), dobrou na década passada e já está em US$ 4.710. O da Índia, pelo mesmo critério, é de US$ 2.610.

O crescimento sustentado da China é de 8% ao ano. O da Índia está em aceleração, já no torque de 7%, embicado para 10%.

Apagão chinês

O modelo chinês é híbrido: o governo é comunista, o mercado é capitalista. O apagão chinês está na sobrevivência de uma ''herança maldita'' ainda não admitida como tal: nada menos de 325 mil estatais de baixa eficiência, anacrônicas, empreguistas, deficitárias, parasitas.

Questão política: não há como privatizar tamanho caixão sem alças e esférico. Primeiro, porque não haveria interessados. Tem sido mais barato e mais rápido instalar empresas do zero. Segundo, porque o bloco paquidérmico emprega 75 milhões de chineses já ressabiados a um custo por cabeça de US$ 0,80 por hora.

Azarão indiano

O modelo indiano está na formação de bolsões de excelência na plataforma educacional e na estrutura de produção viciada em inovação. Clonagem do modelo japonês e de seu cover coreano.

Lula vai ficar sabendo o que Peter Drucker acaba de publicar na ''Fortune'': a Índia produz cientistas em massa e despeja no mercado 220 mil novos engenheiros por ano. Ela dispõe de pelo menos meia dúzia de universidades de classe mundial.

Pelos atalhos

A Índia não se contenta em produzir (e exportar) produtos de baixo preço e nível idem. Ela desenvolve pólos de combate no ''front'' das tecnologias de Informação & Comunicação e de química fina e biotecnologia. Este ano, só em software, espera exportar US$ 10 bilhões.

Algo que a Cuba de Fidel poderia estar fazendo há décadas com um pé nas costas. Tal como já fizeram Cingapura, Taiwan e Hong Kong.

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