''As moedas não fazem o câmbio. O câmbio é que faz as moedas.''

Jan Tinbergen (1903-1994), Prêmio Nobel de Economia

Da ficção cambial
O mercado financeiro projeta dólar a R$ 3,10 para o último dia útil de 2004 e para R$ 3,30 lá pelo Natal de 2005. A taxa média do período tende a se contentar com R$ 3,01 no ano que começa e com R$ 3,19 na travessia do ano que vem.

As médias quebradas à direita da vírgula não é bravata da bola-de-cristal. Trata-se da média das previsões emitidas, sexta-feira, 16, por uma antevisão coletiva de 104 bancos e 17 consultorias financeiras. A sondagem é refeita semanalmente e é de autoria do próprio Banco Central.

Com a ressalva aqui da coluna: tal como a pesquisa eleitoral, projeta-se menos um prognóstico (o do futuro, claro) e mais um diagnóstico (o do presente).

Estabilidade
Na percepção dos atores que ''fazem'' o câmbio no dia a dia, a taxa real de equilíbrio, recalibrada pelo mercado flutuante, já foi restabelecida. Logo, o dólar ensaia flutuar dentro de uma ''banda'' virtual de R$ 2,90 a R$ 3,10 até 31 de dezembro. Combinados?

Cartomancia à parte, a discussão lateral está em saber o tamanho da (des)valorização ou não do real no ventre dessa estabilização cambial.

Metade dos analistas acha que dólar a R$ 3,00 está valendo de 10% a 15% menos do que realmente pesa. A moeda americana deveria oscilar, este ano, entre R$ 3,30 e R$ 3,45. Certo?

Volatilidade
Bem, do meu canto de parteira curiosa, prefiro deixar o câmbio flutuando à derivada em alto mar. Ao sabor dos ventos do mercado e das ondas do governo. Governo e mercado têm massa crítica, cada um a seu tempo e modo, para levar o câmbio a todo lugar e a lugar nenhum.

Afinal, o regime de flutuação nada mais é que a dinâmica de um mercado tipo bolsa. Tal como a do mercado de ações, do mercado dos barris, do mercado dos metais ou do mercado dos grãos. E o metabolismo da bolsa cambial responde a espirros e suspiros de quem compra e de quem vende em estado perene de informação assimétrica.

O ecossistema do câmbio comporta manipulação (de governo) com especulação(de mercado). Sob certas condições, raramente admitidas em público, a taxa de câmbio da vez reflete menos a contingência do mercado e mais a conveniência do governo.

Americanidade
A recente desvalorização global do dólar que o diga. Ela traduz uma conveniência política da Casa Branca de susto. Casada com uma incongruência genética da União Européia, emissora da segunda maior ficção cambial da História: o euro.

Cá entre nós: dá para levar o câmbio a sério quando a moeda de um poder nacional isolado, o dólar, desfila crachá de moeda universal in facto? Dá para respeitar a álgebra cambial quando nenhum terráqueo vivo sabe o tamanho da massa de dólares que circula fora dos Estados Unidos?

Pior: dólar emitido sem lastro físico em ouro nem lastro fiduciário em moedas alheias?

Da paridade
Ficção por ficção, fico com o McDollar da revista ''The Economist''. Primeira e única moeda universal digna do nome. Cunhada pela paridade do poder de compra do dólar em cada um dos 123 paises que produzem em casa o Big Mac da McDonald's.

Ontem, o BIG Mac valia US$ 2,80 em Nova York e US$1,80 em São Paulo. Amanhã, nesta coluna, a gente explica o significado do McDollar. Explica?

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