Hoje é sempre o dia certo para fazer as coisas certas. Martin
Luther King Jr (1929-1968), pastor americano

Dando no couro

Uma pele inteira de um Nelore abatido pela picanha nossa de cada dia rende em torno de US$ 30? se exportada em acabamento primário (wet blue), de baixo valor agregado. Processado até mesmo na própria fazenda do criatório e não no abatedouro de terceiros.

Se a mesma pele passar pelo curtimento, vulgo couro tratado e embelezado, aí a fatura na exportação cresce para US$ 105, valor médio de dezembro.

E se a pele do mesmo Nelore for por aqui transformada em sapato, cinto, bolsa ou casaco? Well, dela serão usinados de fora para dentro nada menos de US$ 315.

Palavra da Abicalçados, entidade nacional do segmento.

Preferência

Para o export drive verde-amarelo, ainda canhestro, interessa embarcar produtos primários ou produtos acabados e/ou respectivos derivados?

Pela escala dos valores agregados, a resposta é acaciana. A venda externa de sapato carrega no ventre o produto, o emprego, o salário, o imposto. E não apenas do sapato, mas de toda a cadeia de valor acionada pelo sapato. Cadeia de bens e serviços em geral. Incluído, recentemente, o explosivo mercado interno do sapato/moda.

Lobby vs. Lobby

Eis que o governo cobra imposto de exportação para o couro em estado quase bruto e decide, na véspera do Natal, cancelar essa cobrança em duas parcelas anuais: de 9% para 7% este ano, de 7% para 4% no ano que vem e para zero em 2006.

Efeito da pressão do lobby pecuarista dos ''bluezeiros''. Que estão no seu papel. A pele wet blue era lixo e passou a valer mais que uma arroba de carne desossada.

Ocorre que o lobby dos curtidores e dos calçadistas, não menos legítimo que o primeiro, sustenta que isentar o embarque de matéria-prima é curtir modelo do século 16, tempo de exportação de pau-brasil, ouro, prata, arara e papagaio.

Armando o inimigo

No couro, estamos dando munição a chineses e italianos, nossos maiores adversários no mercado global do sapato, do cinto, da bola e do casaco. Eles não têm boiada, mas têm o Brasil de mão beijada.

Antes, nossos produtos acabados eram de qualidade duvidosa e de marca vaporosa. Agora, são conquistas de briga em qualquer mercado. Que o diga esta nova edição da Couromoda, no Anhembi, em São Paulo. Há 12 anos, nossa indústria calçadista quase foi enterrada em esquife de segunda classe pela abertura do mercado interno sem aviso prévio nem musculação adequada.

Agora, estamos extraindo do couro bovino US$ 1,5 bilhão em sapatos e outros US$ 650 milhões em artefatos. Os embarques deram de crescer pela média de 10% ao ano. Algo como dobrar a fatura externa até 2010.

Duplo objetivo

Expandir o mercado externo é ampliar os ganhos de escala para a ampliação em paralelo do mercado interno. Um enchendo a bola de couro do outro, em processo de refertilização mútua.

Milhões de brasileiros não precisam de couro. Precisam de calçado. Antes que o plástico movido a Bundchen assuma tudo de vez. Aí, vai sobrar couro.


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