JOELMIR BETING
Sabem por que a gente trabalha com decimais à direita da vírgula? Por uma simples e boa razão: demonstrar nosso senso de humor. William E. Simon, ex-secretário do Tesouro dos EUA
De novo na jaula
Medida pelo Índice Geral de Preços (IGP), da Fundação Getúlio Cargas (FGV), no conceito da disponibilidade interna (DI) de bens, serviços e contratos, a inflação brasileira contentou-se com exatos 7,67% no primeiro ano de atuação do Lula lá. No ano anterior, o da ameaça do Lula lá, a fera havia escapulido da jaula de um dígito, devorando 26,41% do bolso da gente.
Não foi um descuido da lógica de estabilização do Plano Real. Nem um vexame do regime de metas inflacionárias. Foi um conluio de choque cambial na base dos custos dolarizados e de cochilo de governo central na ponta dos preços administrados. Dolarizados e administrados responderam, em 2002, por quase dois terços do IGP-DI de 26,41%. Em 2003, tempo de cicatrização a céu aberto, o bloco dos administrados, isoladamente, produziu 52% do IGP-DI de 7,67%.
Tradução: os preços em liberdade, os do mercado selvagem, devem ter gerado, no ventre do mesmo IGP-DI, uma inflação anual de apenas 3,7%.
Dona selic
O triste é que o arrocho monetário de caráter punitivo tem na mira, exclusivamente, os preços livres de mercado. Ele não tem como alcançar os preços ditados pelo governo. Os primeiros estão bem comportados. Os segundos, mal gerenciados.
Nesta próxima canetada do Copom, quarta-feira, 21, seria bom avisar Dona Selic que a inflação está sob controle e no declive. E não por obra e desgraça do crédito curto e caro, recessivo ou criogênico. E, sim, por ordem expressa do novo tripé da economia de mercado: 1) competição montante como nunca antes; 2) modernização crescente como nunca antes; 3) informação presente como nunca antes.
Não é mais o custo que faz o preço. Para cima. Agora é o preço que faz o custo. Para baixo.
Sem repasse
Na desgarrada geral de 2002, o IGP-DI montou mula de duas cabeças: 1) na produção ou no atacado (IPA), a variação ponta a ponta chegou a 43%; 2) no consumo ou no varejo, ela se contentou com 16%. Não houve repasse de custos para preços - a não ser na margem do processo, com direito a manchetes tenebrosas. Ou se preferem: no ventre do IGP, o IPA não esteve grávido do IPC. Fenômeno não observado desde que o IGP foi inventado.
Em 2003, estação de convergência, para o IGP de 7,67%, o IPC divertiu-se com 9,68% e o IPA não foi além de 6,26%. Na ponderação do IGP, o peso do IPA é 60, o do IPC é 30 e o da Construção Civil, 10. Este fechou em 14,42% (com mercado parado).
Ainda em queda
Para o ponta a ponta de 2004, os cenaristas dos bancos, das empresas e das consultorias, com os pés plantados no terreno minado da economia real, apostam em IGP ao redor de 6%. Empate técnico com previsões laterais em relação ao IPCA, a cargo do IBGE.
O IPCA deve ter fechado 2003 em 9,1% e leva trejeito de acumular 6% até 31 de dezembro. Ou menos. A meta oficial, com timbre do IPCA, é de 4,5%.
Não se vislumbra desvio cambial pela proa (bem ao contrário) nem algum choque de oferta pela curva. De resto, um e outro de vaticínio gasoso. A panela do povo, dona de um terço da renda familiar de metade dos brasileiros, prossegue em plena lua de mel com a expansão continuada da oferta anual das lavouras, dos rebanhos, das hortas e das granjas.
Ano passado, por exemplo, o IPA industrial mordeu 6,91%, enquanto o IPA agrícola lambia 4,55%.





