Desejo que vocês, jornalistas e suas famílias, tenham todos uma morte lenta e dolorosa.

Fausto Tonno, ex-diretor financeiro da Parmalat

Deixem o PIB em paz

Inventário tempestivo da Fipe/USP revela que metade da inflação brasileira na Era do Real deve ser debitada à conta dos preços e tarifas administrados pelo governo. Bloco com peso 30 na ponderação do índice de preços da própria Fipe.
Ora, se o bloco com peso 30 responde por 50% da inflação acumulada no período, isto significa que os preços livres, praticados pelo mercado selvagem, com peso 70 na formação do mesmo índice, desfilam na mesma posição do periquito da paródia caipira: o papagaio come o milho e o periquito leva a fama.

Disparate

Ano passado, o IPC da Fipe acumulou variação gregoriana de 8,2%. Sem os preços e tarifas administrados, a coisa teria ficado ao redor de 4%. Essa é a inflação que deveria estar na mira dos arrochos e dos petardos do Copom. Afinal, nem Selic de 75% ao ano teria algo a ver com a remarcação dos preços de governo.

Desde a estréia do Real, em julho de 1994, o índice acumulado do IPC/Fipe chegou a 138,4%. Dentro dele, taça de chumbo para as tarifas monitoradas da telefonia fixa: reajuste ponta a ponta de 606%.

Come-quieto

E o que dizer do gás de fogão, o de botijão, vulgo GLP?
A produtora é a estatal Petrobras. As distribuidoras são empresas privadas. As tarifas, das agências da União. Resultado: no período, remarcação acumulada de 462,5%.
O detalhe político: o fogão a gás é o lider da inclusão social no Brasil. Pela Pnad/2000 do IBGE, ele está presente em 97% dos domicílios urbanos - incluídos barracos, cortiços e taperas. Não se pensa em tarifa social para um regime de preços da variedade caixa-preta. Nem em justificar o gás do petróleo no fogão da favela sem alternativa remarcado, percentualmente, pelo dobro da gasolina do petróleo no tanque blindado do Mercedes importado.
Tudo pelo social.

No pé-dois

No transporte coletivo, tarifas canetadas por prefeituras diligentes de grandes e médias cidades, a extração popular ficou mais que o dobro do IPC/Fipe na capital paulista: aumento ponta a ponta de 306%.
Para quem ganha R$ 300 por mês, dois ônibus na ida e dois na volta, o transporte coletivo, dito Direito do Cidadão, Dever do Estado, consome um terço da minguada renda pessoal e/ou familiar.
Não por capricho, 17% dos paulistanos já trocaram o ônibus pelo sapato. Carro popular feito de couro e de cola.

Até quando ?

Seria bom passar o aviso aos gestores do arrocho monetário, feito de crédito curto e caro.
Conheço uma senhora, faxineira, 43 anos, descasada, três filhos menores, que ficou a pé para poupar um terço do salário. Exatamente o terço que lhe toma no mês a prestação do fogão a gás, com juros de 154% ao ano.
Ela gostaria de saber se o Copom vai ou não rebaixar a Selic no dia 21, agora que a Fipe acaba de mensurar que o vilão da inflação não está nos preços do mercado, mas nos preços do governo.
Ou seja: vamos deixar o PIB em paz? Não haverá aumento de emprego, de salário e de demanda com PIB abaixo de 5%. O coitado está abaixo de 0,5%.

mockup