Nas relações internacionais, bravata não significa altivez.
Merval Pereira, jornalista

Vingança pela culatra
  Acertam os Estados Unidos em exigir identificação de estrangeiros no desembarque de portos, aeroportos e aduanas. Eles estão em estado de guerra contra um inimigo virtual ou intangível: o terrorismo.

Pior: o medo do terrorismo.
  Erram os Estados Unidos em dispensar desse constrangimento civilizatório, imposto agora a 153 países (e não apenas ao Brasil), um seleto clube de outros 27 países - incluído o bloco da União Européia, abrigo maior do terrorismo em potencial. E não apenas o dos emigrantes do fundamentalismo islâmico. Também os terroristas endógenos, brandindo crachá do Ira ou do ETA. Sem contar os renitentes das brigadas italianas e alemãs e os emergentes das manadas mafiosas da Rússia.
  A alegação oficial de que tais países já estavam dispensados do visto de entrada veste a camisa da burocratice trapalhona. Guerra é guerra e o inimigo não manda torta de maçã nem emite aviso prévio.

Entramos nessa
  Erra o Brasil em mergulhar nesse jogo dos sete erros, discriminando os americanos que nos visitam do alto de uma retaliação improvisada, bravateira e mal equipada.
  Que retaliação brasileira é essa que causa prejuízo ao Brasil?
  Turismo é coisa séria. Tanto mais para paises desfalcados de outras fontes de receita externa, sentados sobre negócios receptivos ainda por fazer.
  Os americanos não precisam da visita de 630 mil brasileiros para turismo, negócio ou trabalho. O Brasil é que anda precisando decuplicar o número de visitantes americanos.
  Estamos recepcionando 3,8 milhões de estrangeiros por ano. Nada além de 0,8% do fluxo global. Ou apenas um quinto da recepção anual do México. A Indonésia hospeda duas vezes mais que a gente. Meia dúzia de ilhotas do Caribe, também.

Bola sem bolha
  O turismo sem fronteira cresceu 28 vezes nas últimas cinco décadas. O total de desembarques disparou de 24 milhões, em 1950, para 710 milhões em 2000. Houve refluxo de 23% no triênio 2001/2003 por obra da crise global e por desgraça do terrorismo de padrão Al Qaeda e derivados.
  Pessoas que viajam não reclamam dos novos controles de segurança. Elas se sentem menos inseguras. O que reclamam é de medidas canhestras de controle. Feitas de muita malícia e pouca perícia. À ordem de burocratas sem treino e mal pagos.
  O fichamento de americano made in Brasil já tem lugar garantido no Guiness Book of the Records: leva-se até sete horas para filas de até 250 desembarcados.
  The New York Times já comentou o caso. Ele colocou seu grifo, não em nossa exigência, mas em nossa incompetência no cumprimento da exigência.

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