JOELMIR BETING
Se Greenspan morresse, mandaria embalsamá-lo, sentado, com óculos escuros, na cadeira do Fed.
Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos
Dólar sob medida
Dizem os economistas da velha escola austríaca que a taxa de câmbio de cada moeda reflete menos uma contingência técnica do mercado e mais uma conveniência política do governo.
Antes, a conveniência do orgulho nacional. Agora, a conveniência do comércio global.
Sem disciplina
Quando empresas e negócios mergulham de cabeça em mercados sem fronteira nem bandeira, a ordem é pactuar regras de comércio minimamente civilizadas. Nada de subsídios e incentivos desleais. Nada de barreiras e restrições unilaterais. Instala-se a OMC por sobre blocos econômicos já pactuados e eis estabelecida a nova ordem internacional para o intercâmbio global de produtos e de serviços em geral. Com direito a tribunais de apelação e a licenças de retaliação.
Certo? Sem entrar no mérito dos diplomas porosos e gasosos da OMC, faltaria disciplinar o câmbio das nações em regime de paridade timbrada pelo poder de compra de cada moeda no respectivo mercado interno.
Alguma coisa parecida com o ''bankor'' de Lord Keynes, derrotado nas escolhas de criação do FMI, em julho de 1944.
Sem censura
Vai daí que, nestes tempos bicudos de globalização sem destino, vêm a furo tacadas cambiais de alto coturno por cima e ao largo das artimanhas dos especuladores incrustados em mercados de câmbio flutuante - que jamais perderá a mania de flutuar.
De alto coturno, sim, porque tacadas engendradas por governos empenhados em resgatar e/ou proteger a competitividade da economia nacional de dentro para fora e de fora para dentro. Moeda fraca estimula exportações e desencoraja importações.
Deixar a moeda perder peso na malhação cambial é um expediente clássico para países interessados em ''agregar tutano'' a estágios de competitividade já exauridos ou ainda incipientes.
O detalhe político: nenhum tratado de comércio estabelece restrições para posturas cambiais da parceria. Tem-se no câmbio o escape do dumping sem censura.
Águia vs. Dragão
O dragão chinês que o diga. A moeda nacional, o yuan, está escandalosamente desvalorizada no câmbio (mas não no poder de compra interno). Estima-se que ela esteja 57% abaixo do que deveria estar valendo em relação do dólar.
E dá-lhe o made in China em todo o mundo - já com exportações de quase US$ 1 bilhão por dia. Impensável para uma China que ainda está comunista. No reverso, dá-lhe déficit comercial nos Estados Unidos, já da ordem de US$ 1,6 bilhão também por dia.
Sem acordo
Porque Pequim resiste em revalorizar a moeda, Washington cuida de desvalorizar a própria. Basta-lhe contratar um déficit público por decreto (política fiscal permissiva) e patrocinar os juros básicos mais baixos em 57 anos. Com os déficits gêmeos (interno e externo), o dólar perde pressão feito pneu furado.
O euro chegou a valer US$ 0,83. Agora, flutua acima de US$ 1,25. Há quem especule com euro a US$ 1,45 na ponta de 2004.
Tradução: o câmbio induzido amplia a nova aceleração da economia americana ao tempo em que retarda a reaceleração da economia européia. Com sobras para a estagnação japonesa.
E o Brasil?
Atrelados ao dólar, ficamos na mesma nas trocas com os Estados Unidos (e com a China, também atrelada ao dólar). Mas ganhamos espaço nas trocas com europeus e japoneses.
A perda líquida é de quem contratou crédito ou dívida na Eurolândia.





