Ironicamente, os trabalhadores estão pagando a conta mais pesada para ter na presidência da República o ex-sindicalista Lula.
''The Financial Times'', jornal inglês (1-1-04)

Do verbo sem verba

O presidente Lula reúne-se nesta terça-feira com os principais ministros para uma discussão sorumbática: como espichar o cobertor de pobre dos investimentos estatais no campo econômico e, sobretudo, no terreno social.
Consta que o presidente não se conforma com o reduzido raio de alcance dos orçamentos federais. Muito menos, com a necessidade contábil de contingência os orçamentos já rabugentos em nome da sustentação de um superávit primário feito de privação do básico e de renúncia do essencial.
Pior: cabresto curto empunhado pela auditoria externa do FMI. Justamente o FMI, apedrejado pelo PT como Judas da Humanidade.

Priorização

Sentado na herança maldita da falência física e moral do Estado Brasileiro - obra de meio século aí pela popa - o governo da remissão coletiva descobre-se no mato sem cachorro e sem codorna.
O verbo governar deu de soar como verbo priorizar.
Ocorre que priorizar bate de frente com a bandeira vermelha da inclusão social por decreto, vulgo MP. Por uma simples e triste razão: priorizar não é incluir. Priorizar é escolher, selecionar, classificar, descartar, excluir. Vixe!
A advertência é de Ludwig Erhardt, comandante do milagre da reconstrução alemã do pós-guerra: ''Eleger prioridades diversas é a melhor maneira de aviltar cada uma delas.''

Sem pilatos

Em 2003, o estreante governo Lula teve de aceitar, com casca e tudo, a carpintaria orçamentária preparada pelo retirante governo FHC. Agora, em 2004, sem lavar as mãos feito Pilatos, o governo petista pero no mucho vai ter de se explicar a cada passo por um verbo até dez vezes maior que a respectiva verba.
Ou como suspirou o então ministro Santiago Dantas a um grupo de deputados janguistas em reunião de gabinete: ''Verba nós temos, senhores parlamentares. O que nós não temos é dinheiro.''

Nem para o mínimo

Com a chave do cofre na mão, o ministro Guido Mantega, titular do Orçamento de padrão casa-sem-pão, antecipou no sábado que não há folga sequer para qualquer aumento real do salário mínimo a partir de abril. A coisa está em R$ 2,40 e talvez tenha um reajuste nominal de 10%, equivalente a um ganho real de, no máximo, 3%.
Como é sabido e sofrido, o arrocho do mínimo, desde os anos 80,tem sido recalibrado, não pela capacidade de pagamento do setor privado, mas pela incapacidade de pagamento do setor público.
Leia-se Previdência Social e Prefeituras Municipais.

Devastação

Entre o programado e o executado, o governo Lula bateu recorde de austeridade orçamentária em 2003. Os recursos liberados não passaram de 29,7% do valor total dos programas autorizados.
Entre outros cortes executados, o grifo vai para a tesourada de 63% no programa da Segurança Alimentar. Ou seja: na panela do povo, o primeiro ano do governo Lula investiu menos de um terço do que foi aplicado no último ano do governo.

E pensar que o Fome Zero deu o que discutir no Brasil e deu o que aplaudir em meio mundo.

Inundação

Sábado, o presidente Lula garantiu que ''a tormenta já passou''.
Pelo tutano das contas federais, o refresco está mais para um anúncio da antiga Ligth de São Paulo:
''Depois da tempestade, vem a inundação.''

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