JOELMIR BETING
Matérias-primas em alta
''Nada é perfeito'', já dizia a raposa ao pequeno príncipe.
O forte aumento da procura de matérias-primas foi um dos fatores que empurraram as exportações brasileiras deste ano a mais de US$ 70 bilhões e permitiram a obtenção de um saldo comercial positivo de mais de US$ 24 bilhões.
A contrapartida destes excelentes resultados da balança comercial é a escalada de preços das commodities . A indústria brasileira, que só não aumentou os preços dos seus produtos finais porque temeu o encalhe da produção, agora está encorajada a repassar seu aumento de custos para o produto final, porque as vendas começaram a andar. Se conseguir, vamos ter nova estocada da inflação no início de 2004 apenas por conta disso.
A China é o novo espanto produtivo do mundo. Cresceu, em média, 9% ao ano nos últimos 20 anos e foi responsável por nada menos do que por 25% do crescimento econômico mundial de 1995 a 2002, como aponta o The New York Times. Como não é um grande produtor de bens primários, tem de importá-los. E, assim, ajuda a explicar o avanço das cotações das commodities nas bolsas internacionais de mercadorias.
Mas não é a única responsável pela esticada dos últimos meses. A produção americana cresceu 8,2% no segundo trimestre deste ano. Os EUA são a locomotiva mundial que mais consome esse tipo de carvão. Se está pegando velocidade é porque também vai consumindo mais matérias-primas.
Por aí já dá para prever que 2004 vai manter esse balão lá em cima. Há duas semanas, a Merrill Lynch advertia que os preços do petróleo continuarão subindo porque a demanda mundial vai ficar maior. Paschoal Paione, analista de Petróleo da corretora Fator Dória Atherino, não chega a apostar na alta das cotações, mas também não vê razões para que caiam do atual patamar dos US$ 30 por barril de 159 litros.
O analista Glauco Carvalho, da consultoria MB&Associados, avalia que os preços das commodities agrícolas deverão, no mínimo, permanecer nos níveis atuais. Mas, segundo ele, a probabilidade de alta é grande. Uma das indicações disso é o relativamente baixo nível dos estoques.
E os juros? - Amarillys Romano, da Tendências Consultoria, tem opinião ligeiramente divergente. Ela entende que até meados de 2004 os preços deverão permanecer firmes. Mas podem começar a ceder se os relatórios da safra americana indicarem forte aumento da produção.
Sérgio Conti, também da consultoria Tendências, prevê que os preços do aço deverão manter-se em alta porque a China vai continuar importando. Além disso, há o consumo daqui. O Brasil é o oitavo maior produtor mundial e parte do aço que hoje é exportado terá de ser deslocado para o mercado interno e pode descompensar a oferta mundial.
Outro ângulo do mesmo fenômeno é o da inflação. Desta vez, não se trata de aumento de preços provocado por emissão de moeda. Trata-se da chamada inflação de custos, que pode ser entendida como um ''imposto'' cobrado pelos produtores de commodities, não importando se são daqui ou do exterior. Enfim, alguém tem de pagar o aumento de renda do pessoal da soja ou dos acionistas das siderúrgicas.
Mas há outro lado ruim. É o de que a política de metas de inflação não faz distinção entre inflação de demanda e inflação de custos. Sua lógica é combater mais inflação com arrocho monetário. Isso não significa necessariamente que os juros voltem a subir por aqui. Mas têm um motivo adicional para cair mais lentamente daqui para frente.
Por Celso Ming





