Dólar mais fraco

Há pelo menos mais dois fortes indícios novos de que os Estados Unidos estão interessados na desvalorização do dólar diante das outras moedas fortes, especialmente do euro e do iene.

O primeiro deles é a reafirmação de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), de que continua mais preocupado com os efeitos da deflação sobre a economia americana do que com a inflação. Apenas para relembrar, deflação é a queda constante de preços que produz sobre a economia o mesmo estrago que a inflação. Reduz a arrecadação e portanto tende a aumentar o déficit orçamentário, na medida em que a maior parte dos impostos é cobrada sobre preços mais baixos; aumenta as dívidas e os juros em termos reais.

A desvalorização cambial interessa a Greenspan na medida em que aumenta em dólares os preços dos produtos importados. Em outras palavras, tende a provocar inflação e, portanto, a neutralizar o processo de deflação.

Convém acrescentar que, no ambiente de juros próximos a zero, como o que prevalece hoje nos Estados Unidos, e numa fase de deflação, fica mais difícil ajustar o volume de dinheiro às necessidades da economia, porque não é possível reduzir os juros abaixo de zero.

Inflação negativa
Ontem, a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) confirmou que a preocupação de Greenspan tem fundamento. Em novembro, os preços assim medidos caíram 0,2%. E o chamado núcleo duro (que expurga da pesquisa os preços da energia e dos alimentos) caiu 0,1%, voltando a ficar negativo depois de 21 anos.

O segundo indício de que o governo americano está interessado no deslizamento do dólar foi a declaração do secretário do Tesouro, John Snow, levada ao ar segunda-feira. Ele disse que não há nada de especialmente errado no dólar fraco. E não foi preciso mais para disseminar a percepção de que as autoridades dos Estados Unidos estão interessadas em que um dólar desvalorizado barateie o produto de exportação, portanto, a incentive e, ao mesmo tempo, encareça o produto importado e, nessas condições, contribua para reduzir as importações. Em outras palavras, um dos efeitos do dólar mais fraco é ajudar a esvaziar o déficit da balança comercial americana que, neste ano, aponta para os US$ 550 bilhões.

A desvalorização do dólar pode fornecer tanto os elementos para a recuperação da atividade econômica dos Estados Unidos quanto para a superação dos dois déficits gêmeos que vêm criando um ambiente de desconfiança sobre o futuro da economia americana. São eles, o déficit orçamentário (o Tesouro gastando mais do que arrecada), de US$ 400 bilhões, e o déficit em conta corrente (os Estados Unidos gastando mais do que arrecadando em mercadorias e serviços no exterior), da ordem de US$ 550 bilhões.

Aterrissagem
Outra questão consiste em saber até onde vai essa fase de esvaziamento do dólar. O euro vai batendo recordes históricos seguidos. Ontem, atingiu US$ 1,2364, o que dá, apenas neste ano, uma desvalorização acumulada do dólar de 14,6%. Comparada com o mínimo de fechamento, aquele US$ 0,8373 registrado no dia 5 de julho de 2001, a desvalorização do dólar em relação ao euro alcança 32,2%.

O diretor de Análise e Estratégia da Divisão América do Banco Santander, Jose Juan Ruiz, acredita em que a cotação do euro, que ontem fechou a US$ 1,2330 vai apontando para o patamar de US$ 1,30. Mas ele não exclui o cenário mais agudo, de um euro a US$ 1,40.

O problema crucial consiste em saber se a aterrissagem do dólar vai ser suave ou se vai levar o avião a enfiar o bico na pista. A questão é relevante porque, à medida que o investidor internacional deixar-se impressionar pela velocidade do ajuste, poderá rejeitar ativos em dólares no mercado internacional, o que precipitaria o tombo.

A desvalorização do dólar tende a arrastar o real. Como isso já está acontecendo, a perda de valor do real em relação ao euro e ao iene vai aumentando a competitividade do produto brasileiro na Europa e no Japão - o que não deixa de ter seu lado bom.

Por Celso Ming, interino

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