JOELMIR BETING
Amor-paixão
Ainda não faz dois anos, uma das mais insistentes palavras de ordem apoiadas pelo PT era ''Fora FMI''.
Não houve na história recente das esquerdas brasileiras instituições mais demonizadas do que a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Quem precisar passar um espanador na memória para avivar esse passado deve conferir os registros dos encontros do Fórum Social Mundial, realizados, com as bênçãos do PT, em Porto Alegre, a cada fevereiro dos últimos três anos.
Paradoxalmente, na sua longa história de relacionamento entre o Brasil e o FMI, não houve nunca manifestação oficial dos dirigentes do Fundo tão elogiosa a uma política do governo brasileiro do que a publicada ontem, por ocasião da aprovação do acordo de extensão de 15 meses (até final de 2004).
O diretor-gerente do Fundo, o alemão Horst Köhler, afirma que ''o desempenho do Brasil no acordo (...) permanece exemplar e todas as metas macroeconômicas foram atingidas''.
A expressão ''permanece exemplar'' poderia dar a entender que o governo Lula se restringe a manter o bom comportamento do anterior. Mas Köhler aprofunda os elogios ao governo atual:
Festejo
''As respostas da nova administração às pressões financeiras foram tanto ambiciosas como corajosas, equilibrando disciplina fiscal e monetária com a perseguição resoluta de objetivos-chave na área social para reduzir a pobreza e fortalecer a rede de segurança social.'' E foi por aí, festejando o reforço espontâneo dado às metas de superávit primário, à política de juros do Banco Central, e às já encaminhadas reformas estruturais da Previdência e do sistema tributário.
Köhler não deixou, como convém, de fazer advertências. Lembrou que é preciso continuar o processo de reestruturação da dívida pública, reduzir o spread bancário e aprofundar as reformas. Mas o tom geral exala o mais genuíno amor-paixão.
Para o povão, que frequenta os sacolões e as feiras livres, esse discurso não faz sentido. Mas não é só para ele. A classe média também tem essa percepção e os discursos dos empresários falam disso, embora com diferenças de linguagem. Enfim, todos se queixam de que o dinheiro está mais curto, o desemprego piorou, o sufoco aumentou. Não conseguem entender como, lá pelas tantas, aparece o maioral do Fundo para dizer que a administração da política econômica está uma maravilha e que a classe operária caminha a passos largos em direção ao paraíso.
Não dá para negar que o céu está clareando num dos quadrantes do horizonte, coisa que poucos conseguem enxergar agora porque ainda estão debaixo dos guarda-chuvas. E que, mais cedo ou mais tarde, a melhora dos fundamentos da economia acabará desembocando em mais negócios, mais salários e mais empregos. Os mais pessimistas talvez pudessem entender isso melhor se lhes fosse dito que o buraco seria maior se não tivesse sido feito o que foi feito. Quer dizer, o diagnóstico do FMI está correto.
Perversidade
Mas o gerente-geral do FMI deixou de levar em conta dois dados essenciais. Em primeiro lugar, deixou de levar em conta que boa parte da recuperação do prestígio dos títulos da dívida pública no exterior, que se reflete no mergulho do índice de risco Brasil, deve-se, não propriamente ao desempenho exuberante do governo Lula, mas à fartura de recursos disponíveis no mercado internacional. Os títulos públicos dos países ricos estão pagando juros rastejantes e é claro que, nessas circunstâncias, algum dinheiro foi arriscar nos títulos dos países emergentes a rentabilidade que não pôde ser obtida com o T-Bond de 30 anos. Quer dizer, se os juros voltarem a subir lá fora, é provável que parte da atual aceitação dos títulos brasileiros se esvaia.
Em segundo lugar, o forte superávit primário obtido pelo governo Lula não se baseou no ajuste da despesa pública, mas no aumento da receita, que agora vai para 38% do PIB. Pior, esse aumento da carga tributária foi obtido graças ao concurso de impostos perversos, como a Cofins e a CPMF, que oneram a cadeia de produção e tiram competitividade ao produto brasileiro. Em outras palavras, a qualidade do ajuste é questionável e pode comprometer a virada em que o governo vai apostando.
No mais, é impressionante a reconciliação de um governo de esquerda com o FMI. Quem diria...
Por Celso Ming, interino





