''Sim, 2003 foi o ano do crescimento do espetáculo. Espetáculo do Lula, do Bush e do Wagner Love.''

Márcio Giovannelli, psicanalista



Balanço de 2004

A bola-de-cristal do mercado financeiro não é frívola nem gratuita. Os cenaristas de bancos e de consultorias financeiras obrigam-se, até por dever de ofício, a trabalhar coma cabeça no futuro. 'por uma simples e boa razão: nos contratos de captação de recursos e de concessão de créditos, os bancos compram futuro, vendem, futuro, estocam futuro, transferem futuro. O juro é o preço a futuro.

O preço da espera para quem poupa e empresta e o preço da antecipação para quem produz ou consume com o dinheiro emprestado.

Vai daí que o Banco Central estabeleceu uma parceria com o mercado financeiro desde 1998. Uma centena de bancos e de consultorias deposita no Banco Central, a cada noite de sexta-feira,a projeção de cada instituição para os principais indicadores macroeconômicos do ano corrente - e também do ano seguinte. A mediana das projeções constitui o relatório semanal Focus, divulgado pelo Banco Central, on-line, ao meio-dia da segunda-feira.

Assim sendo, já temos o balanço do Brasil de 2003 e igualmente o balanço de 2004. Daqui a quatro semanas, já teremos a primeira projeção para o balanço de 2005.

Divulgado ontem, o relatório Focus, capturado sexta-feira, 5, indica que vamos fechar o primeiro ano do governo Lula com inflação acumulada de 9,18, pelo IPCA, índice das metas oficiais. Acima, pois, da meta revisada para 8,5%. Ano passado, tempo de bolha cambial, ela fechou em 16,2%. E no que vem? Vai dar 6%, redondão. Ainda acima da meta fixada em 5,5% para 2004.

A inflação em declínio continuado neste ano e no próximo emite sinais para nova redução da taxa básica de juros, a Selic, na próxima semana, quarta-feira, 17. Ela já baixou a crista de 26,50%, em fevereiro, para 17,50% em novembro. O mercado projeta corte de mais um ponto percentual na próxima e última reunião do Copom, fechando o ano com Selic de 16,50%. E, lá na ponta de 2004, Selic de 14%. Neste ano, média de 23,25%. Ano que vem, 15%.

Tradução: pela ela base interbancária, os juros tendem a permanecer praticamente estáveis na travessia de 2004. O mercado estaria modulando taxa real de 9%. Tida, aqui e ali, como carga ainda pesada, fora do padrão internacional (entre 5% e 2%).

O remanso dos juros tem a ver com a estabilidade relativa esperada para a taxa de câmbio - e vice-versa. No Focus, o mercado projeta dólar a R$ 3,00 no fechamento de 2003 e a R$ 3,25% lá na ponta de 2004. A taxa média de 2003 ficaria em R$ 3,08, contra R$ 2,96 em 2002. Ou R$ 3,11 na média esperada para 2004. Ora, taxa média resvalando em doze meses de R$ 3,08 para apenas R$ 3,11 significa taxa nominal estável e taxa real achatada. Vulgo, apreciação ligeiramente maior do real.

Fechando a roda, câmbio estável torna-se neutro para a variação do IPCA aí pela proa. Sem qualquer tensão inflacionária.


SECOS & MOLHADOS


NO EQUILÍBRIO

A calmaria cambial também tem a ver com o superávit primário das contas internas e com o superávit cambial das transações externas. Passa ainda pelo saldo de US$ 23,6 bilhões praticamente garantido em 2003 e outros US$ 18,5 bilhões projetados para 2004. E dá carona ao ingresso crescente de dólares pelas linhas de crédito externo e pelos investimentos diretos das multinacionais. Estes, da ordem de US$ 12 bilhões em 2004.

NO MARASMO

Pelo mesmo Focus, o mercado projeta PIB de 0,25% no ano do ''espetáculo de crescimento''. Mas acredita em PIB de 3,5% para 2004. Análise ou torcida? Com taxa básica real de 9% nos juros do ano, a reativação do consumo, da produção, do emprego e da renda - necessariamente, pela ordem - terá de pegar o atalho de uma forte redução dos juros na ponta do crédito bancário.

NA PEDREIRA

Vamos entrar em 2004 com taxa média real dos empréstimos bancários pela média de 63% ao ano. Contra 21% na Rússia, 13% na Argentina, 11% no Chile, 9% no México, 7% na Eurolândia, 4,5% na Coréia, 5,5% nos Estados Unidos e 2,8% na China. Pode?

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