''O poder econômico tornou-se global. O poder político continua local. Eis o conduto da crescente vulnerabilidade externa - que é de todos.''
Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República



Geléia de aço


Na bravata do aço, o governo Bush meteu-se em sinuca de bico pela bola 7 de ferro. De olho rútilo nas urnas de novembro de 2004, o texano presidente americano aplicou sobretaxa de 30% no aço importado, com o propósito quase declarado de capturar o estoque eleitoral dos trabalhadores do tradicional setor siderúrgico.

Negativo. O tribunal de apelação da OMC autorizou os países prejudicados a expedientes de retaliação comercial de igual magnitude. Se o protecionismo americano reduz em US$ 2,2 bilhões o desembarque do aço europeu, a União Européia ganha o direito adquirido de cortar, a seu juízo, na mesma medida, as compras que faz de qualquer coisa ''made in USA''. O Japão, outros US$ 1,6 bilhão. Outros países, Brasil no meio, somariam mais US$ 840 milhões.

Resultado: Bush perderia votos republicanos em dezenas de ramos industriais retaliados, sem ter como aliciar os irredutíveis votos democratas do velho reduto siderúrgico. Então, entre dois sorrisos amarelos, Washington revoga agora a sobretaxa usinada em março do ano passado. No comércio exterior, basta-lhe o desgaste eleitoral da gestação terminal da Alca agora em 2004.

Com esse armistício siderúrgico arbitrado pela OMC, inventada exatamente para costuras do gênero, o mercado mundial do aço retomada seu curso de expansão.

As usinas do mundo todo devem furar a barreira de 1 bilhão de toneladas no ano que vem. Contra 965 milhões em 2003. O mercado americano importa 17 milhões.

Ou metade da capacidade instalada no Brasil.

Dos nossos embarques totais, este ano, a fatia americana não deve passar de 17%. Ela acaba de ser igualada pela fatia chinesa. O despertar da China lembra, em todos os mercados, um gorila em loja de cristais. No consumo global, ela escalou de 22%, em 2000, para nada menos de 31% neste fechamento de 2003.

Em três anos, as importações cresceram 44%. A ponto de inflacionar o mercado.

Yes, o aço está em alta lá fora e ensaia um reajuste de 10% a 15% aqui dentro.

O coque metalúrgico perdeu o juízo. Nos últimos doze meses, a tonelada disparou de US$ 72 para US$ 234. O efeito China também endoidou o frete marítimo - com reajuste de 108% no ano. Antes, nossa Vale desembarcava minério na Ásia com o frete médio chupando de canudinho 47% do preço médio de chegada. Agora, o frete simplesmente dobra o valor CIF de cada tonelada.

Alguém poderia até levantar a mão: quer dizer que operar navio dá mais dinheiro que explorar minério? E pensar que navios de bandeira brasileira respondem por menos de 3% de nossas trocas com o mundo... Não é por falta de estaleiro.

O desvario do frete tem a ver com a explosiva demanda chinesa e com a metralha do seguro marítimo em todos os mares hoje à disposição do terrorismo terceira guerra já deflagrada.


SECOS & MOLHADOS


FUNDO DO POÇO

É assim que as 9 empresas do setor siderúrgico desenham o mercado brasileiro de 2003. Os três maiores blocos da clientela negaram fogo. O setor automotivo fecha o ano com crescimento zero (exceção de máquinas agrícolas). Eletrodomésticos da linha branca também andam de lado. E a construção civil rumina retração de 8%. Pior desempenho desde a demolição collorida de 1990/92.

REVERSÃO

O setor acredita em reversão da sinistrose em 2004. Um PIB de 3,5% bastaria para a virada. Caso da CSN. A empresa exportou metade da produção em 2003 e espera colocar no mercado interno 80% das vendas totais em 2004.

ESCALADA

Em sete anos de privatização, com direito a pesados ajustes patrimoniais no percurso, a siderurgia investiu US$ 13,2 bilhões, a dólar de 2001. E desembolsa outros R$ 4,2 bilhões até 2007. No tripé: ampliação, diversificação, modernização.

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