JOELMIR BETING
''Nas projeções do mercado financeiro, duas notícias sobre câmbio. Primeira: o dólar não sobe mais. Segunda: o dólar não baixa mais.''
Relatório ''Focus'', do Banco Central do Brasil
Câmbio travado
O regime de flutuação cambial no Brasil pisa com pés descalços sobre ovos de tartaruga. O mercado é estreito, quase travado. Qualquer espirro na margem desencadeia solavancos clamorosos por todo o sistema. Será que não daria para lubrificar as roldanas da regulação e garantir maior liquidez ao mercado?
Eis a pauta do seminário sobre câmbio que a BM&F instala amanhã, em São Paulo. Coordenado por Daniel Gleizer (ex-BC), o evento coloca na mesa-redonda alguns dos maiores especialistas na transgênica matéria. Começando por Henrique Meirelles, que está presidente do Banco Central.
Escalados para o debate os ex-BC Gustavo Franco, Gustavo Loyola, Sérgio Werlang, Ilan Goldfajn, Demósthenes Madureira e Emílio Garófalo. Mais Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco; Rodolfo Fischer, diretor-executivo do Itaú; e Carlos Eduardo Monteiro, presidente da Nossa Caixa.
Tese em exame: a volatilidade excessiva, no momento em hibernação, tem a ver com o formato do mercado cambial e não com o regime de flutuação. Este, de resto, praticado por 8 países em cada 10. O que se pretende é dar transparência, abrangência e eficiência ao processo de formação da taxa de câmbio diária - ainda um disco voador para 99% dos brasileiros e, provavelmente, um bicho de sete cifrões para 88% dos empresários.
A discussão de amanhã na BM&F deve começar pela proposta de maior liberalização da conta de capitais. O cardápio inclui uma avaliação crítica de normas, regras e condutas que hoje bitolam os diferentes segmentos do mercado. Com sobras para ajustes jurídicos e operacionais nos sistemas de negociação e liquidação.
Esse debate sobre câmbio, estritamente técnico, como convém ao melindroso assunto, ocorre em pleno remanso de uma ''banda de mercado'' com razoável grau de previsibilidade. O que significa o manejo diuturno de uma bola de cristal chipada que descortina o micro e o macro, o Brasil e o mundo.
O sistema financeiro obriga-se, por dever de ofício, a operar com faróis de neblina e com faróis de milha. Ele compra futuro, vende futuro, aluga futuro, estoca futuro, transfere futuro, contrata futuro. O que é o juro se não o preço do futuro? Preço da espera para o credor ou para o poupador, preço da antecipação para o tomador.
Pois o sistema financeiro acaba de fechar novembro com projeção jurada forte para o câmbio na ponta de 2003 e na ponta de 2004. Antevisão pinçada da sondagem semanal dos principais indicadores macroeconômicos que o Banco Central realiza junto a uma centena de bancos e consultorias financeiras.
Anote aí. O dólar fecha 2003 em R$ 3,00, redondão. E baterá em R$ 3,25 no final de 2004. Com taxa média, neste ano, de R$ 3,08. Essa taxa média não passaria de R$ 3,13, em 2004.
SECOS & MOLHADOS
Calmaria 1
A variação da taxa média de R$ 3,08 para R$ 3,13 no ano que vem, para um IPCA esperado de 5,5% pela meta do governo ou de 5,8% pela aposta do mercado, significa que, em termos reais, haverá certa revalorização da moeda nacional em 2004. Dizem que o real já estaria valendo 11% acima do que realmente pesa.
Calmaria 2
O severo ajuste das contas externas fecha o ano com superávit de US$ 2,6 bilhões nas transações correntes. Aqui por dentro, dólar médio de R$ 3,13 seria neutro para os juros e para os preços.
Calmaria 3
O remanso cambial tem a ver igualmente com o declínio da inflação (e dos juros), com o Ibovespa acima de 20.000, com o risco Brasil abaixo de 500, com o C-Bond perto de 100% do valor de face, com o ajuste fiscal anoréxico, com a nova blindagem do FMI, com o crédito externo reaberto e oferecido e com as 22 viagens ao Exterior do presidente Lula em apenas 12 meses. Vai para o Guinness.
www.joelmirbeting.com.br





