''Política industrial é realizar produtos e serviços cada vez melhores. A custos, encargos, tributos, carimbos e juros cada vez menores.''

Olavo Pedreira Random, empresário


Modelo esgotado

Dizem os americanos que a melhor política industrial é não ter política industrial alguma. Basta-lhes a política comercial defensiva, quando preciso, e agressiva, quando necessário. Política comercial no sentido da proteção da competitividade nacional de fora para dentro e da promoção da competitividade nacional de dentro para fora.

Tudo a ver com um modelo econômico holístico, com direito à correção tempestiva de desvios e à cobertura pontual de vazios. Se o processo é dinâmico, por natureza, que se garanta jogo de cintura à economia de mercado, sem o imobilismo da economia de comando.

Ou, como reflete o economista Paul Rommer: os paradigmas dos mercados sofrem mutações mais velozes que os paradigmas das empresas e ainda mais profundas que os paradigmas dos governos. Em especial dos governos que se deixam enredar em dissonâncias cognitivas de caráter meramente doutrinário ou ideológico.

Caso do perplexo petismo no Brasil ou do esgotado cepalismo na América Latina. Na modelagem sempre inconclusa de políticas industriais, ainda estamos discutindo nos lares e nos bares a dicotomia bizantina mercado interno versus mercado externo. Com sobras para o atalho anacrônico da substituição incentivada das importações. Ainda que de produtos ou mercados sem escala física e sem inovação encorajada.

Bem ao contrário, a intenção bom-mocista do nacionalismo econômico depositou nos ombros do Brasil (e da América Latina) esta ''herança maldita'' de uma economia semiprotegida de baixa eficiência, ainda hoje geradora de empregos ruins com salários péssimos.

Eis que, em pleno advento do governo PT, se recorta o figurino de alguma coisa parecida com política industrial digna do nome. Divulgado na semana passada, o repertório de diretrizes ousa colocar sua ''focalização'' na competitividade internacional do País. Arejamento ideológico de primeira.

Com meio século de atraso, estamos embarcando no bonde chipado da estrepitosa afluência asiática: do Japão dos anos 60 para a China dos anos 90, com toda a tigrada dos anos 70 e 80 alegremente refestelada a bordo do modelo vencedor não-cepalista.

O planeta China, que ainda está comunista no discurso, fez a clonagem do figurino japonês sem alarde nem melindre. Qualquer figurão octogenário do PC chinês sabe soletrar no assembleísmo da ''nomenklatura'': a) mercado interno e mercado externo não são excludentes ou alternativos; b) mercado interno e mercado externo são complementares ou aditivos.

A China de Mao só exportava peças de porcelana e asas de borboleta. Desde Xiaoping, virada dos anos 80, a China exporta hoje perto de US$ 1 bilhão por dia e importa quase outro tanto também por dia. Com produção e emprego crescendo acima de 8% ao ano.


SECOS & MOLHADOS

Alternativa

O esboço anunciado elege quatro setores: bens de capital, semicondutores, softwares e fármacos/medicamentos. Há quem prefira a reinvenção das câmaras setoriais, já que se trata da adoção de políticas estanques ou verticais. Havia 22 delas no governo Sarney. Foram demolidas no governo Collor/Itamar e ignoradas no governo FHC.

Integração

Isolar apenas quatro segmentos é soltar miados de leão. A economia moderna funciona não mais por empresa, mas por cadeia de valor de cada empresa e pela integração de todas as cadeias em processo continuado de refertilização mútua.

Da corrente

Na concepção e operação da economia em cadeia, em parceria, em aliança - já existe até a rede TI para isso - nenhuma empresa ou setor sobreviverá como ilha de mercado. O que prevalece é o princípio da física aplicada: nenhuma corrente pode ser mais forte do que seu elo mais fraco.

www.joelmirbeting.com.br

mockup