''Na economia, a sabedoria tem dúvidas. A ignorância tem certezas absolutas.''

John Richard Hicks (1904-1989), Prêmio Nobel de Economia

Nem com chutometria

Última Forma: revisão metodológica sem aviso prévio na econometria do PIB verde-amarelo de anemia avisa aos navegantes e governantes que o PIB de 2002, tempo de pânico, cresceu 1,9% e não 1,5%. Vai daí que, por efeito estatístico, nas marolas do reajuste metodológico, o PIB de 2003, vencimento da primeira das quatro prestações dos 10 milhões de empregos do Lula lá, não mais leva jeito de crescer 0,8%. Tende a ficar em 0,4%. Ou menos.

A revisão metodológica na produção dos índices básicos da macroeconomia (produção, emprego e inflação) constitui um exercício indispensável, sobre ser melindroso. Se a realidade econômica muda ou se transfigura, que se ajuste a métrica dela. E como tem mudado de curso, de ritmo, de formato e de conteúdo nosso processo econômico ainda poroso e medroso.

Ocorre que o governo Lula só ficou sabendo da mudança da metodologia na apuração do PIB, aplicada no inventário do terceiro trimestre, nesta última semana de novembro - pós decepção coletiva com crescimento de apenas 0,4% para uma expectativa de até 2,6%. Descoberta tardia para a versão final do Orçamento-Geral da União de 2004 - que projeta PIB de 3,5% sobre uma base 2003 agora rebaixada pela elevação retroativa da base 2002. Durma-se.

Bem, como a gente tropeça a cada passo na estatística, pegadinha da matemática, temos que na análise econômica estabelecida entre nós até o passado tem sido imprevisível. Temos que refazer, rapidinho, todos os cálculos, contratos e projeções que tomam como referência o curso do PIB.

Da dívida pública ao crédito privado, da carga tributária aos pisos orçamentários de ordem constitucional, entre outros, estamos tratando com rubricas de magnitude telúrica. Qualquer revisão à direita da vírgula aciona para baixo ou para cima recursos ou valores na casa de bilhões.

A fragilidade estatística da economia brasileira não é culpa do IBGE. Nem da FGV, do Ipea, da Fipe ou do Dieese. Bem ao contrário. Nossas usinas de econometria tiram leite de basalto na prospecção de fenômenos translúcidos no terreno minado do econômico e do social.

Não bastasse a escalada de mudanças rápidas e profundas na economia e na sociedade, desde meados dos anos 80, aqui dentro e lá fora, temos entre nós o complicador ainda maior da crescente ''informalização'' do sistema produtivo - danificando a qualidade e erodindo a confiabilidade da econometria brasileira.

Dá para fazer a ponderação segura da margem informal ou oculta dos mercados, dos negócios, dos salários, dos empregos? Tanto mais, informalidade em expansão continuada por obra e (des)graça do garrote tributário, do arrocho monetário, do sufoco orçamentário, do estorvo regulatório. Nem com chutometria.

Secos & Molhados

Bola-de-neve

Ou pior: bola de lama. A informalidade já trafega no estágio superior da criminalidade. Qual terá sido, nos últimos 12 meses, o PIB Negro da sonegação, do contrabando, da pirataria, da falsificação e do roubo de carga por encomenda? Essa economia subterrânea pero no mucho não deixa impressões digitais. Ou deixa?

Sem carteira

No mercado de trabalho consta que o exército sem farda dos informais ensaia ganhar por 2 x 1 da brigada dos assalariados com registro em carteira. Se é que daria para definir o perímetro correto da População Economicamente Ativa (PEA). A partir dos 14 anos de idade? Ou dos 10 anos?

Sem nexo

Na manchete: ''Cresce o trabalho infantil no Brasil''. Na página 18: ''Desemprego cresce na faixa de 10 a 15 anos''. No rodapé da página 18: ''Busca do primeiro emprego cresce 1.000 por dia''. Ou ainda: ''Cerca de 27% dos aposentados procuram trabalho''.

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