''Nosso subdesenvolvimento não é uma anormalidade. É uma enfermidade. Tem de ser tratada. E tem cura.''

Darcy Ribeiro (1922-1987), antropólogo


PIB Zero, Come Zero

Boa notícia: no terceiro trimestre, o PIB trocou o declive do primeiro (-0,8%) e do segundo (-1,2%) pelo aclive (+0,4%). Má notícia: no acumulado do ano, só não vamos ruminar um PIB zero (ou abaixo de zero) se a expansão do quarto trimestre, já no impulso de banguela de reversão do terceiro, situar-se em 2,5%.

Para o ministro do Planejamento, Guido Mantega, há sinais concretos de retomada dos investimentos pela base da oferta e de reaquecimento do varejo pela ponta do consumo. De resto, movimento de padrão natalino, de caráter sazonal. A guinada nas expectativas ou nas intenções de compra dos consumidores só foi detectada em outubro.

Portanto, o relançamento do consumo, da produção e do emprego, pela ordem, tem neste quarto trimestre o seu tiro de partida. Esqueçam o +0,4% de julho a setembro. O ministro do Planejamento, Luiz Fernando Furlan, resume o estado de espírito do governo Lula: nesta altura do calendário, a correção do rumo é o ganho condicionante; a impulsão do ritmo é o ganho condicionado.

A decepção do +0,4% do terceiro trimestre, virada da biruta, tem a ver com a projeção gasosa de cenaristas que juravam um salto de até +2,6% no período. Assim como há cenaristas, agora de nariz torcido, jurando que a expansão deste quarto trimestre ficará abaixo de 2%. Seria a garantia de PIB zero para o primeiro ano do governo Lula, o do Fome Zero.

Se é verdade que a estatística é a ficção da matemática, temos que o importante é não perder de vista o PIB por habitante. Qualquer desempenho abaixo de 1,4% ao ano resulta um decréscimo real do produto nacional per capita. Dona cegonha ainda exibe torque de 1,4%. Pior: com parto maior na larga faixa da baixa renda.

Para o triênio 2004/2006, que tem a ver com a reeleição ou não do presidente Lula, o PIB teria de transitar acima de 3,5% ao ano (piso projetado para a retomada do ano que vem). Algo a ver com a aceleração dos investimentos da chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) da ordem de 21%. Está em 17%. Ou menos.

No terceiro trimestre, a construção civil, que divide o pau da barraca da FBCF com as aquisições de bens de capital pela indústria, pela agricultura e pelos serviços em geral, sofreu contração de 11% no movimento de projetos, vendas, contratos e encomendas. Mas já houve reação no segmento de bens de capital em setembro, com apetite ainda maior em outubro e novembro.

De qualquer forma, a reativação do consumo e da produção só romperá os grilhões do empego a partir de um PIB acima de 5% ao ano. Sustentadamente. É que a modernização continuada do aparelho produtivo resulta em unidade de produto ou de serviço cada vez maior por unidade de emprego ou de trabalho.


SECOS & MOLHADOS

Desilusão

Nota editorial do Estado, de ontem: ''Cada brasileiro traz dentro de si um aprendiz de economista. Mas de economista que não gosta de estudar estatística.'' Daí a decepção com o +0,4% para uma expectativa (sem base) de até 2,6%. Não havia indicadores para expansão maior que 0,4% no terceiro trimestre.

Alteração

Não faltou aviso prévio do IBGE sobre a mudança da metodologia de cálculo do PIB exatamente no inventário do terceiro trimestre. Com efeito não previsível pela planilha de praxe dos cenaristas. Faltou avisar que havia forte queda trimestral nos dois megablocos multiplicadores do PIB: agrobusiness e construbusiness.

Comparação

Os estatísticos amadores não levaram em conta, na expectativa de até 2,6%, que a base de comparação com o terceiro trimestre de 2002 estava muito elevada (pouco antes da explosão do câmbio, dos juros e dos preços). E a base do trimestre anterior estava submersa em -1,5%.

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