JOELMIR BETING
''O ministro da Fazenda é o autêntico goleiro do governo. Evita gols do adversário e não deixa de salvar gol contra.''
Luiz Fernando Furlan, ministro do Desenvolvimento
PIB do mau humor
O mau humor continua em alta. Onde? No interior do governo Lula. Palavra do ministro do Planejamento, Guido Mantega: ''O pessoal da Fazenda estava de mau humor quando escreveu o relatório sobre o desempenho da economia no ano. De qualquer forma, seja PIB de 0,9% ou PIB de 0,4%, esse número não tem relevância.''
Bingo? Nenhum PIB abaixo de 3% tem relevância para um Brasil que cresceu pela média de 4,2% ao ano no século passado e que tem massa crítica (represada) para crescer, asiaticamente, acima de 7% ao ano. Algo como dobrar o PIB a cada década.
Neste triênio 2001/2003, tempo de apagão, eleição e recessão, estamos emplacando a média medíocre de 1,1%. Abaixo do crescimento da população, da ordem de 1,4%. Ou se preferem: mil e uma noites com crescimento por habitante abaixo de zero.
O problema, agora, não mais está em soltar a anta da jaula. E anta fora da jaula vira um tigre do tamanho de um elefante. O problema está em saber qual é o índice real da minguada expansão do PIB por trás das cortinas do Espetáculo do Crescimento.
Em cada cabeça, uma lambança. Para o Banco Central, vamos fechar 2003 com PIB de 0,6%. Para o Ipea, 0,5%. Para a Fazenda, 0,4%. Para o Planejamento, 0,8%. Caberia ao presidente Lula bater o martelo entre o 0,4% de Palocci e o 0,8% de Mantega. Isso daria o 0,6% do Banco Central. Combinados?
Para o mercado financeiro, cenário atualizado a cada semana por uma centena de bancos e consultorias, por encomenda do Banco Central, o PIB verde-amarelo de anemia completa 0,7% no ano. Com deflator de 13%, a coisa chegaria a R$ 1,750 trilhão. Pela mediana do câmbio, calculada para R$ 3,06 por dólar, estamos virando 2003 com PIB de US$ 580 bilhões. O dólar perdeu 17% desde janeiro.
Não bastasse o choque de bolas de cristal do governo, eis que entra em campo nova metodologia de cálculo do PIB. Para azar da nobre série histórica do macro indicador do IBGE. Que divulga hoje, pela nova metodologia, a variação do PIB no terceiro trimestre, o da virada. Surprise.
Na nova ponderação do Produto Interno Bruto entra o mercado chipado da telefonia celular - em expansão estrepitosa. Haverá nova métrica para o peso dos aluguéis e dos gastos com saúde. Além de mudanças nos pesos dos serviços de utilidade pública (estatais e privados), com recálculo do desempenho desse bloco no primeiro semestre. Troca-se a turbina em pleno vôo.
No mais, constitui tarefa esotérica capturar a dimensão real do PIB neste nosso imenso purgatório da economia informal.
SECOS & MOLHADOS
Papai Noel
Cenaristas no batente não acreditam em soluço natalino do PIB agora em dezembro. Papai Noel já cortou a ração das renas e avisa que não tem gás hélio para ejetar uma ''bolha de consumo'' ainda este ano. A única identidade de Papai Noel com o governo Lula é que ele adora vermelho e sempre foi barbudo.
Pedreiras
Parece consenso dentro e fora do governo de que o PIB de 2004 não se contentará com menos de 3,5%. Análise, aposta ou torcida? Há capacidade ociosa para essa retomada. O que não dá liga é a manutenção das três pedreiras: arrocho monetário, garrote tributário e sufoco orçamentário.
Atalho
Impossível, a médio prazo, aliviar o sufoco orçamentário e o garrote tributário. Mas é possível (e inadiável) amainar o arrocho monetário - que até por overdose se tornou um mal desnecessário. A decisão não depende da encrenca do Congresso. Basta a caneta do governo.
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