''Eis o problema de se jogar com o tempo: nós matamos o tempo e ele nos enterra.''

Rubens Ricupero, secretário-geral da Unctad/ONU


Feliz 2005

Palavra do ministro Antônio Palocci, dono da chave do cofre: ''Não esperem que vamos abrir mão de metas fiscais. Ainda não estamos na fase de abrir as torneiras. O aperto tem de ser mantido em 2004.'' No auditório planaltino de fim de semana: ministros, governadores, prefeitos e lideranças do PT.

Desilusão geral para um partido com a cabeça no governo e o fígado na oposição. Sim, o PT tem sido até aqui o maior partido de oposição ao governo Lula. E, no governo, desde a posse, o alvo da bronca intestina tem sido o ministro Palocci. Com sobras para o primeiro-ministro José Dirceu. Poupa-se o presidente Lula.

Ocorre que já está sedimentada uma nova versão de um antigo processo político: o advento de um lulismo bem maior que o petismo. Lulismo do corte de um getulismo, juscelinismo, janismo, brizolismo, malufismo. O que significa dizer que temos um presidente maior que o governo e um governo maior que o partido.

Eis a força do ministro Palocci. Que espeta nas bases do partido o mesmo ''diktat'' do antecessor Pedro Malan: a neutralidade fiscal e a estabilidade monetária são os fatores condicionantes; o crescimento econômico sustentável ou duradouro é o fator condicionado.

Tradução: o espetáculo do crescimento fica adiado, até prova em contrário, para a travessia de 2005, segunda metade do primeiro governo Lula. Ainda haveria tempo para ganhar a (re)eleição em 2006. E as prefeituras de 2004? O partido quer passar de pouco mais de uma centena para meio milhar de prefeitos nas urnas do ano que vem.

Com a economia ainda andando de lado? Com o emprego travado e o salário defasado? A esperança tem prazo de validade. O partido já sentiu o arrepio na nuca. Que o diga a briga da casa sem pão em que se transformou a usinagem do novo Orçamento da União. O cobertor de pobre não é elástico e vai do umbigo aos joelhos.

Alfaiate do Orçamento, o ministro Guido Mantega reprisou domingo que a prioridade orçamentária para 2004 é exatamente a mesma de 2003: garantir a ferro e fogo o superávit primário de 4,25% do PIB. Sem incluir a conta de juros, projetada para cerca de R$ 15 bilhões para uma dívida pública que ensaia virar o ano acima de R$ 820 bilhões. Dos quais, metade atrelada à dona Selic.

Juros, eis a questão. Se não vai dar para afrouxar o garrote orçamentário, por que não arriscar algum refresco na overdose do arrocho monetário? Rebaixa-se a taxa básica real de 11% para 7% ao ano e alarga-se a oferta bancária de 24% para 35% do PIB. Haveria alívio fiscal (ou orçamentário) pela redução equivalente dos encargos financeiros da dívida pública e pelo aumento da arrecadação de tributos e encargos na reativação consequente da economia.


SECOS & MOLHADOS

No palanque

Pelo sim, pelo não, o presidente Lula deixou escapar, domingo, que vai embarcar no trio elétrico do PT nas municipais de 2004. Para praticar esse seu esporte favorito, o presidente avisa que vai fazer o sacrifício de cortar meia dúzia de viagens ao Exterior. Neste primeiro ano, já viajou 21 vezes. E volta a viajar ainda antes do Natal por seis países do Oriente Médio.

Na carreata

Em nome da campanha eleitoral do partido, o presidente sem vocação para a Minerva do cargo promete viajar pelos 27 Estados, mapeando mais de mil prefeituras para esta carreata rosca sem-fim. Parece que não haverá assuntos relevantes na agenda despachante do Palácio do Planalto.

Três grandes

Na remontagem do itinerário externo, a chancelaria brasileira tem como sagradas as visitas presidenciais aos três maiores parceiros do futuro planeta dos emergentes: Índia, em janeiro; China, em maio; Rússia, em agosto.

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