JOELMIR BETING
''Salvamos do fiasco esta conferência de Miami. Ainda falta salvar do aborto a gestação da Alca.''
Marcos Sawaya Jank, consultor (Ícone)
Não Alca nem desalca
Missão comprida, missão espichada. Miami de novembro chuta para Puebla de fevereiro a bola quadrada da negociação terminal do que não se quer negociar: a futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Enrolação retórica é o nome da diplomacia universal.
Ocorre que, no desacordo continental da Alca, tal como no impasse global da OMC, a matéria é prerrogativa protocolar dos diplomatas e não dos tecnocratas. Os primeiros obrigam-se a discutir subsídio de açúcar ou dumping de aço com a mesma sapiência e ligeireza com que discutem a remoção cirúrgica do regime de Saddam no Iraque ou a futura partilha política do Conselho de Segurança da ONU.
De resto, a carpintaria de blocos econômicos, segundo o princípio onírico da decisão por consenso entre parceiros da desigualdade, constitui a grande fantasia intelectual do último quartel do século passado. Torre de Babel é apelido.
Esta semana, a conferência ministerial de 34 países, monitorada pelos Estados Unidos e pelo Brasil, deu no que deu: ajustou-se um rascunho de formato em Miami para um esboço de conteúdo em Puebla. Conteúdo já antecipado: vem aí a tal de Alca light, Alca soft, Alca seltzer, Alca à la carte, Alca possível, Alca fatiada, Alca desidratada, Alca customizada, Alca rarefeita, Alca conveniente, Alca resiliente, Alca intermitente.
Brasil e Estados Unidos apararam as arestas e amarraram as pontas: fica para Puebla a hercúlea tarefa de ampliar ao máximo o acordo mínimo. Até fevereiro, os 34 países terão de arredondar suas propostas para um futuro tratado feito de 30% de direitos e 70% de deveres.
Entre interromper a contagem regressiva que vai zerar daqui a 405 dias ou sacramentar uma Alca cosmética, a comunidade hemisférica optou pela segunda via. Com a exposição de motivos: a) não desmoraliza a diplomacia em um fracasso de padrão Cancún (o da OMC); b) descortina-se um horizonte de 15 anos de transição para uma integração comercial digna do nome.
O presidente Lula endossa e comemora essa protelação fatiada. Ainda não esquentou a cadeira e ainda não obteve consenso alcalino no interior do próprio governo. Muito menos, no perímetro do partido. O setor privado está igualmente rachado. Metade considera-se já competitivo ou preparado. Metade confessa-se ainda no mato sem cachorro. Não obstante, uns e outros estão concordes no ponto-chave: não dá depositar no tablado da Alca a anta sem dentes para o embate com as garras da águia.
No primeiro round, o águia Mike Tyson faria da anta Jeca Tatu uma almôndega estirada na lona. Jeca Tatu com uma bola de ferro amarrada em cada pé da produção: carga tributária duas vezes mais pesada e custo do capital cinco vezes mais elevado. Não dá.
SECOS & MOLHADOS
Fantasia 1 - Projeta-se para 2005, decolagem da Alca, um PIB hemisférico de US$ 14 trilhões. Dos quais, US$ 11,2 trilhões made in Usa e mais US$ 270 bilhões a crédito das subsidiárias americanas plantadas na América Latina e no Caribe. Tamanha disparidade não ocorre no bloco europeu nem no bloco asiático.
Fantasia 2 - A geopolítica tem razões que a própria razão embrutece. Entre os 34 países da Alca desfilam com poder de voto ou de veto Santa Lúcia, Belize, Granada, Barbados, Suriname, Trinidad e Tobago, San Vicente e Granadines, San Kitts e Nevis. Nevis fora.
Fantasia 3 - Cada país quer livre acesso a mercados alheios para os respectivos produtos já competitivos. Mas sem recíproca para produtos alheios diante dos quais não se consideram musculosos. Deve ser aquele mundo ideal imaginado por Woody Allen: todas as mulheres devem casar; porém, os homens, não. www.joelmirbeting.com.br





