JOELMIR BETING
''A economia não é feita de metros, quilos, litros, horas e cifrões. Ela é feita de interesses e expectativas de gente em carne e osso.''
Kenneth Boulding (1910-1999), economista inglês
Prima donna Selic
Formigas aboletadas em tronco que desce o rio imaginam que estão dirigindo o tronco. Economistas aboletados na Selic que desce o rio acreditam que estão dirigindo o rio. Sim, basta mexer na Selic à direita da vírgula para monitorar as escolhas de 177 milhões de brasileiros e as decisões de 6 milhões de empresários.
Será mesmo? O que movimenta as famílias, os mercados e as empresas é a intrincada malha de juros de bancos e de lojas nas bases da produção e nas pontas do consumo. Juros descolados das variações homeopáticas da Selic. Qual é o peso da Selic no spread de bancos e de lojas? Quais são as outras decisões de governo que integram a estrutura desse mesmo spread?
Se o objetivo do novo rebaixamento da Selic é o de abrir as cortinas da economia real para o espetáculo de crescimento econômico com estabilidade monetária, podem tirar a anta da chuva. Seria o mesmo que derrubar elefante com espingarda mata-gato.
Piedosamente amansada de 19% para 17,50% ao ano, a nova Selic teria contribuído, ontem, para a queda dos juros bancários de 225% para 221% no cartão de crédito, na média apurada pela Anefac. No cheque especial, outro refresco genial: de 176% para 173%.
Dá para encarar? Cheque especial e cartão de crédito fazem o capital de giro da classe média. Cuja renda real, segundo o IBGE, rumina queda acumulada de 14,6% nos últimos 12 meses. E 29% desse orçamento mutilado, avisa a Fipe, estão comprometidos com os encargos financeiros do consumo. Sem contar o sequestro de outros 32% dessa mesma renda pelo garrote tributário do consumo, da renda e do patrimônio, informa a Trevisan.
Cunha fiscal igualmente amoitada nos juros do cheque e do cartão. Ou seja: o governo do inconformado José Alencar é o grande come-quieto do que ele chama de ''despropósito dos juros''. A fatia dos impostos diretos e oblíquos não se contenta com menos de 30% do ''spread'' bancário.
E o que dizer dos recolhimentos compulsórios de 40% (já foram até de 75%) dos depósitos à vista? Sucção de liquidez que torna o crédito mais curto, mais caro e, por decorrência, de maior risco e de prêmio de risco. Tanto mais porque governo e Congresso não estão a fim de recriar condições jurídicas para o exercício seguro e rápido das garantias bancárias (que mitigariam o risco e aliviariam o juro).
O governo come-quieto, que sem trabalho e sem risco fatura quase um terço dos juros do mutuário encalacrado (é fácil botar a culpa nos bancos), é o mesmo que enxuga dois terços da poupança privada na rolagem da respectiva dívida pública (agora de R$ 718 bilhões). Da qual, 50,8% sob o guante sadomasoquista da Selic. Uma conta de juros, este ano, da ordem de R$ 152 bilhões. Ou perto de 8% do PIB.
SECOS & MOLHADOS
Sem refresco
Que o Copom durma em paz. O patamar dos juros de mercado permanece na face oculta da Lua. E a oferta de crédito para produção e consumo, racionada pelo governo, continua abaixo de 25% do PIB. Ou menos de um terço da média mundial. Nos últimos 12 meses, a oferta bancária cresceu 11% em valores nominais para um IPCA acumulado de 14%.
Fantasia
Vamos parar com essa fantasia organizada em que se transformou o ritual do Copom. Mexer em juro com aviso prévio não entra na minha cabeça teutônica. E divulgar decisão colegiada com placar de 7 x 2 não é transparência. É asneira. Serve apenas para aumentar o Ibope para a Ata do Copom. Que deveria ser divulgada ao fim da reunião de dois dias (precisa tanto?) e não na semana seguinte.
Dona Selic
Outro dia, o taxista José Maria de Jesus identificou-me pelo retrovisor e não perdeu a viagem: ''Por que eles não demitem essa tal de Selic? Ou será ela a verdadeira primeira-dama?''
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