''Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.''
José Saramago, poeta português


Vem aí a naftalina

Seguinte: os americanos estão mesmo a fim de fazer a Alca com o Brasil ou sem o Brasil. Eles dizem que a Alca não precisaria do Brasil. Bem ao contrário. O Brasil é que não poderia sobreviver do lado de fora da Alca. De saída, perderia todo o mercado da América Latina para a hegemonia americana. De resto, a economia mais competitiva e mais poderosa do mundo e da História.

Em outubro de 2002, abrindo o ''Fórum das Américas'', em Miami, endereço da nova conferência ministerial da Alca, o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, deixou escapar com rudeza texana de estirpe bushniana: ''Se o Brasil não quiser participar da Área de Livre Comércio do Hemisfério, ficando de costas para o Norte, ele que trate de caminhar para o Sul. Talvez consiga um bom acordo bilateral com o mercado anecúmeno da Antártida.''

Na ocasião, o Itamaraty de FHC descartou a Operação Pinguim, com a seguinte exposição de motivos do então chanceler Celso Lafer: ''Para o Brasil, a Alca é uma escolha e não um destino. Não vamos fazer acordo bilateral com a Antártida. Preferimos negociar acordos bilaterais com a África do Sul, com a Índia, com a China, com a Rússia, com a União Européia, com o México, com o Canadá, com os Estados Unidos e - por que não? - com a futura Alca.''

Chanceler do governo Lula, o ministro Celso Amorim emenda: ''Nas tratativas multilaterais da Alca os interesses são múltiplos e, não raro, conflitantes. Mas a decisão é por consenso. Se não há acordo na negociação do formato e do conteúdo da Alca, não haverá Alca. Acordo nenhum ainda é melhor que um acordo ruim.''

Lei de botequim: o negócio só é bom negócio quando os dois lados ganham; quando só um dos lados ganha, o negócio deixa de ser bom negócio para o ganhador porque o negócio acaba.

O que espanta é que a Alca está em gestação há quase dez anos e até agora ninguém sabe ainda como se faz a coisa certa. O único avanço: cresce, a cada dia, o número de pessoas e de países que já sabem como se faz a coisa errada. Se a Alca não der liga, a nova carpintaria do tratado global da OMC também não terá como se desvencilhar do fracasso de Cancún.

No mais, discutir se o Brasil precisa da Alca ou se a Alca precisa ou não do Brasil é conversa Taylor - made da diplomacia universal. As uvas do outro lado da mesa estão sempre verdes. O que causa desconforto no Salão Oval da Casa Branca. Imaginava-se que no mundo unipolar da águia, pós-queda de muros e de torres, haveria condição política para a imposição do ''diktat'' americano do neo-isolacionismo diplomático. Não é o que ocorre. Seja nas escaramuças de guerra contra um inimigo sem cara nem alma, seja na amarração da ''nova ordem econômica'' made in USA e abusa.


SECOS & MOLHADOS

Sem quintal

Os impasses da Alca desenhada pelos Estados Unidos estão instalados, de baixo para cima, pelo Brasil. Desde o governo FHC. Aqui no governo Lula, esnobamos: o Brasil liderou o bloco dos emergentes no puxa-tapete da OMC em Cancún. Sim, sabemos pelejar os chamados jogos não-cooperativos. Esporte favorito dos diplomatas de carreira.

Com slogan

Nos gabinetes do Departamento de Estado, com cópias para os do Pentágono, transita a lei magna da diplomacia dos cifrões - desde os anos 50, com John Foster Dulles. O lema da tropa é o seguinte: ''Somos bons negociadores não porque somos poderosos. Somos poderosos porque somos bons negociadores.''

Naftalina

Sem o Brasil, Washington faria da Alca nada mais que um Nafta ampliado para o restante da América Latina. Com título já registrado em cartório: naftalina.

www.joelmirbeting.com.br

mockup