''Na transgenia, estão arquivadas as restrições científicas e ambientais. Falta, agora, a acomodação dos interesses econômicos e comerciais.''
Jorge Guimarães, novo presidente da CTNBio


Já tomou seu espessante?


No centro do palco da ópera-bufa OGMs/ONGs, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) acaba de trocar de presidente. Sai Erney Camargo, médico especializado em biologia molecular de parasitas; entra Jorge Guimarães, bioquímico do Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Erney Camargo, o cientista que saiu (ou caiu?), continua na presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Jorge Guimarães, o cientista que entrou, estava no comando da Secretaria de Políticas Estratégicas e Desenvolvimento Científico, no interior do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

Estamos tratando aí com doutos e não com leigos para nossas escaramuças na polêmica dos transgênicos. Lá fora, onde o assunto já está cientificamente equacionado e juridicamente resolvido (o da liberação da transgênese na economia rural), o debate da recepção dessa nova tecnologia de domínio privado limita-se hoje a conflitos de interesses meramente comerciais entre empresas e entre nações.

Do papa João Paulo II ao PC da China, passando pelas organizações da ONU para saúde (OMS) e alimentação (FAO), os organismos geneticamente modificados (com ou sem transgenia) estão declarados seguros (até prova em contrário) para a saúde humana, a saúde animal e a sinfonia ambiental.

Ou se preferem: bem menos nocivos que os agressivos agrotóxicos descartados pelos próprios transgênicos. A tal ponto, que já pipoca nos Estados Unidos um novo mercado para os produtos transgênicos - o dos chamados alimentos orgânicos. Uns e outros timbrados pelos preceitos da rastreabilidade e da rotulagem.

Diga-se de passagem: onde estavam ou ainda estão os ongueiros de passeata que jamais ergueram uma palha seca contra a infestação química da panela do povo pelos agrotóxicos mal aplicados, se bem formulados? E o que dizer da perversão biológica dos hormônios do peso no bife nosso de cada dia - de boi, de porco, de frango ou de peru? Que tal um olhar na poderosa indústria dos aditivos químicos do suco, do refrigerante, da cerveja, do vinho, do leite, da bolacha, do chocolate, da balinha ou do pão? Ou da água?

O leitor já tomou seu acidulante hoje? Ou seu espessante? Ou seu antioxidante? Ou seu estabilizante? Ou seu aromatizante? Ou seu colorante? Você sabe do que cada gororoba dessa é feita? Está no rótulo? Nem na passeata.

No momento em que a China, que ainda está comunista, avisa que avança para o mercado global do algodão porque a variedade transgênica Bt cortou pela metade a aplicação de agrotóxicos diversos e baixou em mais de dois terços a intoxicação dos camponeses indefesos - causa espanto que, entre nós, a questão tenha resvalado do terreno científico para o pantanal ideológico.


SECOS & MOLHADOS

Inocentes úteis?

Na linha de frente da resistência à inovação tecnológica de interesse público (ao largo dos lucros da Monsanto na soja, autora da pesquisa e titular da patente), desfilam comunistas desenganados travestidos de ambientalistas indignados. Para variar, eles fazem o jogo dos fabricantes transnacionais de agrotóxicos, os únicos prejudicados pela difusão não mais reversível dos OGMs.

Interesse público?

Interessa ao planeta da fome realizar alimentos cada vez melhores a custos e preços cada vez menores. A revolução biotecnológica está fazendo isso. Mais que isso: os transgênicos fazem a ponte para a primeira geração dos nutracêuticos: produtos naturais cada vez mais nutritivos e com adicionais farmacêuticos. O alimento vai virar medicamento.

Bom começo

Banana transgênica já atua como remédio em Serra Leoa. Coalhada de beta caroteno e afins, está cortando pela metade o glaucoma que hoje aflige 40% da população mais pobre do mundo.

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