''O problema do Fernando Henrique é que ele não pára em Brasília. O que ele prefere mesmo é exibir-se lá fora para as elites de fora.''

Luiz Inácio Lula da Silva, setembro de 1998

Navegar é preciso

Nesta sua nova passagem por Brasília, o chanceler Luiz Inácio Lula da Silva, que está presidente da República, comanda hoje o reposicionamento do Brasil, última tentativa por consenso no interior do próprio governo, para a conferência ministerial da Alca, daqui a duas semanas, em Miami.

Assunto relevante. Tão relevante como o da costura do primeiro acordo do governo Lula com o historicamente satanizado FMI. Semana passada, enquanto o presidente itinerante dizia desconhecer o formato e o conteúdo de um eventual acordo com o FMI, o núcleo do governo anunciava as bases do próprio. O governo, em Brasília. O presidente, na África.

Bem, no dia em que a tecnologia produzir o e-governo, o presidente poderá presidir online, pelo celular multimídia. Artigo ainda não disponível no Palácio do Planalto.

Pois, se há um governo precisando de reuniões virtuais e de decisões chipadas, é precisamente o governo Lula. Caso único no mundo. Amanhã, o presidente resvala para sua 21 viagem ao Exterior em dez meses e meio de trono. Passa o fim de semana na Bolívia. Assunto relevante: 13 Cúpula Ibero-Americana.

Em dezembro, o presidente missionário completa a agenda externa do primeiro ano com uma visita a seis países do Oriente Médio. Pela ordem: Síria, Líbano, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito e Líbia. Certamente, o presidente dirá que o Oriente Médio não é só deserto, camelo e pistache. Descobrirá em Doha que as torres de vidro são mais imponentes que as torres de óleo.

Visitar 38 países em 22 viagens em apenas 12 meses de governo remete o presidente Lula para a próxima edição do The Guiness Book of the Records. Contando-se os tempos de viagem lá fora com os tempos de viagem aqui por dentro, tem-se que o presidente alado vai fechar o ano com 154 dias passados em Brasília e 211 fora dela.

De pleno acordo. As viagens são relevantes. O problema é a relevância infinitamente maior da agenda pendente no gabinete do presidente. Uma pauta digna do trabalho de 12 Hércules para esta emergência nacional sob um governo salvacionista tripulado por um presidente messiânico.

Entre outros assuntos na agenda palaciana, que não são menores do que jogar futebol com os meninos do Corinthians de Moçambique, figuram matérias do tipo: 1) revisão final do Orçamento-Geral da União para 2004; 2) reajuste geral do Plano Plurianual de Investimentos para 2004/2007; 3) regulamentação do programa Parcerias Público-Privadas; 4) costura do acordo com o FMI para a blindagem de 2004; 5) regulação das agências reguladoras e remodelagem do setor elétrico; 6) ajustes na futura lei de Biossegurança; 7) retoques na reforma tributária; 8) aparas na reforma da Previdência; 9) retomada da reforma trabalhista; 10) chamada da reforma do Judiciário; 11) definição da reforma agrária; 12) projeto da política industrial. Que tal?

SECOS & MOLHADOS

Mucho Mais Ainda sob o martelo presidencial, este ano, a costura da primeira reforma ministerial pelo corredor polonês do apaziguamento intestino do PT, maior partido de oposição ao governo Lula. São jogos não-cooperativos que já têm a ver com as municipais de 2004 e com as presidenciais, legislativas e estaduais de 2006.

Despachante Ocorre que governar não é circular. Presidir é despachar. De 12 a 15 horas por dia, incluídos o churrasco do sábado e a pelada do domingo. A menos que presidir seja delegar. O que faria do presidente Lula a rainha Elizabeth: reina, mas não governa. O Tony Blair primeiro-ministro já temos: José Dirceu.

Da Exclusão De resto, governar é priorizar. Priorizar é escolher. Escolher é excluir. Eleger prioridades diversas é a melhor maneira de aviltar todas elas. O que dá ao governante uma frustração depressiva.Tanto mais se identificado com a Felicidade Nacional Bruta.

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