JOELMIR BETING
''Alguns boxeadores precisam ser carregados de volta aos camarins. Na Alca, o Brasil parece que terá de ser carregado também na ida.''
José Maria de Jesus, estivador aposentado
Têmpera do aço
Nada de cobrar pedágio de até 30% do aço estrangeiro mais barato que desembarca no mercado americano, com seu consumo por habitante da ordem de 480 quilos este ano. A Organização Mundial de Comércio (OMC) acaba de bater o martelo em decisão de última instância, a do tribunal de apelação.
Criada por Bush, em março de 2002, a sobretaxa eleitoreira foi declarada, anteontem, ilegal para o mundo inteiro, Brasil no meio. As exportações brasileiras de aço crescem em peso bruto e em preço médio. O mercado externo está aquecido. Mais que isso: no limiar da escassez. Palavra do International Iron and Steel Institute. O mundo fecha o ano consumindo 940 milhões de toneladas. Aumento de 7,5% sobre 2002.
Para variar, com efeito China no riscado. Em 2001, o mastodonte amarelo consumiu 22% da produção global de 710 milhões de toneladas. Em 2004, o instituto projeta fatia chinesa de 31% para um mercado mundial pela primeira vez usinando a marca anual de 1 bilhão de toneladas.
Para as 9 usinas brasileiras, a China acaba de igualar os Estados Unidos no pódio da clientela lá fora. Dos embarques totais, até outubro, 16,6% para os Estados Unidos e 16,5% para a China. Cujo consumo anual per capita ainda empata com o nosso, de apenas 110 quilos. O do Japão está em 635 quilos e o da Coréia do Sul nada menos de 855.
Se o mercado americano perde posição relativa na exportação brasileira, é bom notar que, no conjunto da futura Alca, nossos 33 parceiros do megabloco totalizam, este ano, 54% das vendas totais. O aço brasileiro não tem medo da Alca. O aço americano tem. Usinas fatigadas arrostam o dobro do custo de realização das siderúrgicas brasileiras já ampliadas, concentradas e modernizadas.
Em sete anos de privatização, o setor investiu US$ 12,7 bilhões e tem mais US$ 4,2 bilhões na agulha para 2004/2007. Ele já opera no limite técnico de 95%, taxa de ocupação ótima da capacidade instalada, da ordem de 34,5 milhões de toneladas. Com ganhos em produtividade e em diversificação de produtos e de mercados.
A heráldica CSN acaba de inaugurar na planta de Araucária (PR) nossa primeira unidade de galvalume. Sim, galvalume - aço revestido com 20% de zinco e 80% alumínio. Inventado pelos americanos nos anos 70, o galvalume verde-amarelo vai fazer a alegria da construção civil. Ele é três vezes mais resistente que o galvanizado tradicional (coberto com 100% de zinco).
O mercado interno, tripulado pela construção civil e pelo setor automotivo, está andando de lado há mil e uma noites. A clientela reclama da dolarização oblíqua dos preços do aço nacional, tal como se dá com o óleo de soja ou com o açúcar de cana. Bem, o dólar ensaia fechar o ano devolvendo quase metade da correção de 53% nas fuzarcas do ano passado.
Secos & Molhados
Sem apoio - Nosso aço é compacto dentro da usina e poroso fora dela. A siderurgia carrega o caixão de chumbo, roliço e sem alças, que o custo Brasil soldou no entorno de cada alto-forno. De resto, um dificultômetro em cascata (institucional e estrutural) que estiola todas as nossas cadeias produtivas, sem exceção.
Sem jantar - Grita-se muito por uma remoção das barreiras americanas. Pouco ou nada se faz por um desmanche das besteiras brasileiras. Em especial, nos tributos, nos encargos e nos juros, o custo Brasil teima em almoçar a árvore antes de jantar seus frutos.
Sem grilo - Pelo sim, pelo não, as usinas fazem desse limão uma doce limonada. O setor deve fechar o ano com lucro líquido de R$ 4,8 bilhões, na estimativa da Thomson Financial. Neste azul, só vai perder para a rentabilidade estrepitosa do meganegócio do petróleo (R$ 16 bilhões) e do megamercado dos bancos (R$ 8,4 bilhões).
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