''Uma nova crise na semana que vem vai ser um desastre. Minha agenda já está complemente lotada e inarredável.''
Henry Kissinger, quando chanceler dos EUA


Uma crise cansada

Sim, a crise cansa e também se cansa. Ela já emite sinais de um fenômeno de física aplicada: fadiga do material. Já acontece nos Estados Unidos, aconteceu antes na Ásia e começa a acontecer também entre nós. O sistema capitalista não aguenta permanecer de braços cruzados e gavetas fechadas - aguardando sabe-se lá mais o quê?

Há quem jure, por todos os juros em baixa, que temos tudo para reprisar, em 2004, o que fizemos, sem alarde, em 2000: expansão da economia (de 0,7% para 4.4%) com retração da carestia (de 9% para 6%). Foi uma façanha telúrica. A retomada do crescimento econômico com estabilidade monetária deu-se na contramão das crises nacionais e das neuras importadas.

Os monetaristas da Selic desconversam até hoje sobre o assunto. Onde já se viu expansão do crédito e do PIB sem repique da inflação de demanda? Bem ao contrário. No ano, aumento de um terço na oferta de crédito com redução de um terço na taxa do IPCA.

Virada tanto mais supimpa porque então pespegada na contramão da desaceleração global, dos rescaldos ainda fumegantes da desvalorização cambial, do colapso finalmente anunciado da Argentina dita contagiosa... A retomada só não se adensou em 2001 porque o apagão mental da energia, a partir de abril, desenhou em certas projeções do ''mercado'' um Brasil eletrocutado no próprio caos.

Quando o apagão mental da energia começou a dissipar-se aqui dentro, explodiu lá fora o apagão emocional do 11 de setembro. Ensaio geral para uma neura alheia de 10 megatons na travessia de 2002: a síndrome da desconfiança em um Brasil que se dispunha a vestir a barba de Lula... Foi nosso o terceiro maior risco-país do mundo ali pela altura de agosto, mês do cachorro louco.

Pois gastamos nove meses de 2003 na gestação de um governo Lula mais católico que o Papa - porque muito pragmático no rodapé do partido mais dogmático. O novo governo conquistou a ressabiada credibilidade externa sem danos maiores à popularidade interna. Ainda que apelando para overdose de arrocho monetário, overdose de garrote tributário e overdose de bloqueio orçamentário.

Resultado líquido desse estoicismo político feito de privação e renúncia: 54% dos brasileiros acreditam que a economia vai melhorar nos próximos seis meses pelos condutos do consumo, da produção, do investimento e do emprego, necessariamente pela ordem.

A sondagem do estado de espírito dos brasileiros é realizada, trimestralmente, pela FGV. Ressalvada a bolha sazonal do fim de ano, vale o grifo dos próprios autores da pesquisa: a rebrota do otimismo coletivo é tanto mais comovente porque ainda sem a recuperação casada do emprego e da renda. Esta, com perda real de 14% no ano. Um horror.


Secos & Molhados

Pela ordem

Todo ciclo de ruptura da sinistrose começa pelo consumo financiado, se crédito amaciado em banco e/ou em loja. Os bens duráveis reagem na primeira curva. Os bens correntes aguardam a segunda. Estes recuam menos nas vacas magras. E a volta às prestações ''congela'' fração maior de um orçamento mensal ainda sem folga.

Na confiança

Índice de confiança dos empresários, apurado pela CNI em outubro, não deixa por menos. Se 54% dos consumidores estão otimistas (FGV), 56% dos industriais também. Algo a ver com a expansão de 62% nos investimentos da indústria de base em 2003 (sobre 2002). Ela aposta em 2005, 2007, 2010.

Na cautela

Fabricantes de bens de consumo ainda estão na moita. Nos ramos de alimentos e de bebidas, os investimentos de 2003 estão 58% abaixo de 2002. Nos eletroeletrônicos, com crédito curto e caro, queda de 44%. No entretenimento, recuo de 29%.

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