''A reação da indústria parece impropriedade de física aplicada. Ela estaria erguendo-se do chão puxando os próprios cabelos.''

Reynaldo Purim Frischtak, consultor

A biruta já virou?

Com crescimento de 4,3% sobre agosto e de 4,2% sobre o mesmo mês do ano passado, a indústria brasileira voltou a respirar balão de oxigênio em setembro. Ocorre que a pesquisa mensal do IBGE indica que, no acumulado dos primeiros nove meses do governo Lula, a variação do PIB industrial se contentou com a taxa anoréxica de +0,1%. Houve marcha à ré no primeiro semestre.

O importante, nesta altura do calendário, é tirar os olhos do retrovisor, deitá-los até o final da ladeira aí pela proa e dar uma espiada nos sinais do computador de bordo. Sinais positivos. Entre outros: a reversão para a frente e para o alto, caçapa cantada desde agosto, ocorre menos pelo torque das exportações e mais pelos aditivos do consumo interno de ponta e da demanda de bens de capital.

Retomada de boa qualidade, suspira o ministro Luis Fernando Furlan. O aumento do consumo presente se faz acompanhar da expansão da oferta futura - contratada na volta das empresas às compras de máquinas e equipamentos, nacionais e importados. No segmento, expansão de 8,1% em setembro. Com provável repeteco em outubro. Ou como diz o ministro: ''A reação na demanda de bens de capital é um lance explícito de confiança na economia ou uma aposta concreta na resposta positiva do mercado a futuro.''

Observação relevante. A retomada pelo consumo sem o resseguro da ampliação da oferta futura - com diversificação e modernização de bens e serviços em geral - mal passaria de uma bolha de demanda de padrão natalino. Bolha que acabaria furada antes do carnaval por esgotamento da capacidade aquisitiva de um consumo de ponta ainda atrofiado no emprego e na renda.

Eis a questão de fundo: se o próprio IBGE informa que o desemprego já cravou o recorde de 13% e se a renda real da população desfila perdas acumuladas de 14% nos últimos 12 meses, de onde o mercado interno estaria sacando sua recarga de energia? Ou não estaria, simplesmente, emitindo sintomas de padrão ''melhora da morte''?

Não é por aí. O reaquecimento das fábricas (+4,3%) ocorre em especial no flanco dos bens de capital (+8,1%) e dos bens duráveis (+5,1%). Uns e outros reféns da disponibilidade de crédito bancário que se revela menos curto e menos caro para produção e consumo. Pois está havendo uma distensão seletiva do arrocho monetário - que até por overdose vinha funcionando como veneno puro disfarçado de remédio duro.

A coluna já gastou um Xingu de tinta nesta cantilena: cobrar juros de até 65% ao ano na produção e de até 130% no consumo (para um IGP-M projetado pelos próprios bancos para 6,5% nos próximos 12 meses) nada tem de austeridade monetária. É um equívoco do nosso anacrônico regime antiinflacionário, na categoria do mal desnecessário.

SECOS & MOLHADOS

Sem farra - Soltar as amarras do crédito não é contratar farra de crédito nem explosão de consumo. É simplesmente retirar o peixe do aquário e devolvê-lo ao rio - como ocorre em quase todo o mundo. Lá fora, os empréstimos para produção e consumo oscilam de 80% a 140% do PIB. Cá por estas bandas e bandos, não passam de 25%.

Reserva - Nenhum país tem essa reserva de potência guardada no cofre: ampliar a oferta bancária de 25% para 50% do PIB, ainda pela metade da oferta mundial. Lembram-se de 2000? Expansão de quase um terço no crédito com redução de um quinto nos juros fez o PIB crescer de 0,7% para 4,4%. Na contramão da sinistrose global.

Inflação? - Adoro martelar isso aqui todo dia. A expansão do crédito (31%) e da economia (4,4%) não atiçou a inflação. Bem ao contrário. Para o constrangimento acadêmico do Copom, o danado do IPCA baixou a crista no ano de 9% para 6%.

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