JOELMIR BETING
''Existe um caso de amor confessado entre o governo Lula e o FMI. Não me admira se logo mais nascer um belo rebento e já barbudo.''
Arthur Virgílio, senador (PSDB-AM)
PT do B por um FMI do B
Única dúvida, por enquanto: prorrogação do acordo velho ou formulação de um acordo novo? O acordo em vigor completa cinco anos agora em novembro. Foi assinado logo após a reeleição de FHC em 1998. Com prorrogação em 2001 e renovação em 2002, tempo de borrasca. Na primeira versão, guarda-chuva de US$ 41 bilhões. Na última, blindagem de US$ 30 bilhões.
A próxima versão, a primeira do governo Lula, ensaia contratar uma vacina anticrise da ordem de até US$ 15 bilhões para a travessia dos próximos 12 meses. Tempo de bonança verde-amarela.
Para um governo petista, negociar diretamente com o FMI deve ser uma saia-justa de aço-carbono. O partido sempre capitulou o FMI como inimigo público número um do planeta dos excluídos. Na Era FHC, o FMI era a própria máscara do neoliberalismo selvagem, jurava o PT.
E agora, José? José Genoino? José Dirceu? José Alencar? Mudou o PT ou mudou o FMI? Quem ainda não mudou é o Brasil. Um gigante deprimido, endividado e dependente, com crescimento econômico perto de zero no produto real por habitante - há uma década e meia. Ou desde a moratória incondicional, dita soberana, de 1987. Tempo de 34 países submergentes prostrados na UTI do FMI.
Mudou o PT, ora pois. O partido era dogmático na oposição e se revela pragmático no governo. Nada a ver com a coerência raivosa da base agora estigmatizada como radical ou quadrada. Base que relê na direção de Anne Krueger, a madre superiora do FMI, hoje em Brasília, um dos versículos da ''Carta ao Povo Brasileiro'', do PT, de 1.747 palavras, datada de 22 de junho do ano passado: ''O povo brasileiro quer mudar para valer. Recusa qualquer forma de continuísmo, seja ele assumido ou mascarado.''
Bingo! Nada de continuísmo. Vamos continuar amasiados com o FMI. Mas não com o FMI do FHC, ortodoxo e invasivo. Com o PT, vamos de FMI do B. Digno da manchete de oito colunas no Estado de ontem: ''Busca de crescimento leva a acordo com FMI.'' Cruzes!
Vem aí um acordo sob medida do PT do B com o FMI do B, no suspiro do aliado Aldo Rebelo, patrão do PC do B. Um acordo de padrão ''stand by'': um mero resseguro de gaveta para a eventualidade de alguma crise importada aí pela proa de 2004. Não há risco de crise interna. O próprio governo Lula exibiu talento, esforço e caráter ao queimar nove meses de Palácio em 2003 apagando o incêndio que ele mesmo provocara no palanque em 2002.
Analistas do sistema financeiro, carpinteiros e carpideiras do risco Brasil, juram que um novo acordo seria bom em si mesmo - independentemente do formato e do conteúdo ainda não ajustados. Dizem eles que nenhum governo, por mais que tenha a brilhante cabeça ideologicamente lavada, deve abrir mão dessa armadura preventiva oferecida e barata. Oferecida, sim. Barata?
SECOS & MOLHADOS
Custos
Em um acordo próprio com o FMI, os custos políticos para um governo Lula não são desprezíveis. Culpa-se o FMI pelo superávit primário draconiano de 4,25% do PIB. Superávit feito não de otimização dos gastos, mas de protelação dos gastos e de elevação dos impostos. Ajuste fiscal recessivo e a fundo perdido.
Benefícios
Ocorre que os custos políticos (para dentro do governo e do partido) teriam retorno nos benefícios para a credibilidade do governo no sistema financeiro, com sobras para a tranquilidade da economia na virada já esboçada. Isso é o que conta.
Avanços
Nos custos, o governo Lula tenta um gol de placa: retirar do superávit primário os investimentos em programas estatais reprodutivos. Caso do saneamento básico. Onde, cada novo real em água e esgoto pouparia R$ 4,30 em saúde pública. Até o FMI entende tamanho benefício fiscal - por sobre tamanho dividendo social.
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