JOELMIR BETING
''Mais uma vez, o poderoso dinamismo da economia americana resulta de processos do sistema e não de projetos do governo.''
Bruce Hagenbaugh, consultor americano
Espetáculo sem aspas
Nova York - Com o espetáculo de crescimento no terceiro trimestre, expansão anualizada de 7,2%, maior taxa trimestral desde janeiro/março de 1983, o PIB americano pela primeira vez ultrapassa a barreira de US$ 11 trilhões, a preços correntes. Ou 33% do PIB mundial, na estimativa do FMI.
Parênteses: a fatia brasileira na economia global vai de mal a pior. Do pico de 1,4%, em 1984, ela não deve passar, este ano, de 0,8%. Em duas décadas perdidas, a participação brasileira acumula um espetáculo de encolhimento da ordem de 43%.
Na decolagem anunciada da águia, ao fim e ao cabo de um triênio de ''slowdown'' para reabastecimento das provisões de bordo, nova tropeçada dos analistas de Wall Street, posseiros da informação econômica destilada pela mídia. De nariz torcido para o desarranjo fiscal de Bush & Cia. (do superávit de US$ 537 bilhões em 2000 para o déficit de US$ 410 bilhões em 2003), os gurus da especulação financeira na saúde e na doença da economia real avisam que as uvas da retomada ainda estão verdes.
De má vontade, chegaram a projetar para o PIB do trimestre julho/setembro uma ''bolha'' de 6%. Ainda assim, por efeito da gastança bélica made in Bagdá. Pois o deslanche foi de 7,2% e os gastos públicos (civis e militares) cresceram 3,2% no período. Os gastos e/ou investimentos das empresas avançaram 11,1% e o consumo agregado da população espichou 6,6%.
O detalhe: o consumo de ponta responde por 70% do PIB americano. Ou por US$ 7,7 trilhões, em 2003. Logo, o reator da locomotiva global tem tudo a ver com a cultura hedonista do ''eu consumo; logo, existo'', na sentença cunhada por Leo Burnett. Foi na virada das expectativas dos consumidores que se deu a volta às compras. Incluídos os imóveis e os automóveis. Virada não flagrada pelos índices de confiança da população (pesquisa tópica que se contenta com amostra de até 800 famílias auscultadas por telefone).
Tem-se no Departamento do Comércio, em Washington, que o PIB deste quarto trimestre tem tudo para crescer 4%, no mínimo. Ainda pelo viés das intenções de consumo da população um tanto quanto desafogada das neuras nacionais e importadas.
Nesta segunda-feira, a The National Retail Federation, porta-voz do varejo, informou que as encomendas das lojas nas fábricas para o Natal (já faiscando nas luzes de Nova York) fecharam outubro com expansão de 14,3%. Para dezembro, a entidade espera um consumo natalino de US$ 217 bilhões. Eis o tamanho do saco do Papai Noel.
Nos bastidores deste espetáculo de crescimento sem aspas transita o indicador mais festejado entre os doutos: a rebrota dos investimentos empresariais em modernização, ampliação, incorporação, promoção. Engavetados desde março de 2000.
SECOS & MOLHADOS
E o emprego? - No trimestre do PIB de 7,2%, o emprego geral manteve-se estável. As empresas fizeram uso de capacidade ociosa, de estoques encalhados e de nova onda de produtividade (expansão recorde de 3,4% no ano). Prevê-se redução do desemprego de 6,1% para 5% em mais 24 meses.
E o déficit? - Até prova em contrário, o déficit interno (US$ 410 bilhões) e o déficit externo (US$ 570 bilhões) escrevem certo por linhas tortas. É feito por aumento do consumo do governo com redução da carga tributária. Nada que Lord Keynes condenaria. Os déficits gêmeos desvalorizam o dólar e estimulam as exportações (mais 12,3% no terceiro trimestre).
E a inflação? - É para o Copom pensar na cama. A economia cresce e a carestia não reaparece. Tal como ocorreu na exuberância da década passada. Ou na tigrada asiática desde os anos 80.
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