JOELMIR BETING
''A ordem é mudar a balança do poder dos negócios da energia. Do velho petróleo estrangeiro para o novo hidrogênio nacional.''
Doug Randall, consultor americano
Sem petróleo nem biomassa
NOVA YORK Em sua loja da Park Avenue, a Honda japonesa desfila com orgulho um modelo prosaico, o FCX, de 80 HP. Nada de especial na carcaça ou no design, mas tudo de ficção nas engenharias do motor e do combustível. O carro é movido a célula de combustível sacada do hidrogênio. Única ejeção do escape: água.
Em sua mensagem de janeiro sobre o estado da União, o presidente Bush, tido como empresário texano lambuzado de petróleo, abriu uma verba inicial de US$ 1,2 bilhão para acelerar nos laboratórios nacionais os projetos de pesquisa e desenvolvimento da célula de hidrogênio para fins automotivos.
Uma força-tarefa de cientistas e executivos, assessorada por consultores do Pentágono, acaba de revelar o dedo do elefante: há que se reproduzir, até 2015, o repto kennedyano do homem na Lua. A dólar de dezembro último, o Programa Apolo consumiu, em 12 anos, cerca de US$ 110 bilhões.
Algo parecido terá de ser investido na aceleração do P&D do carro a hidrogênio, adianta Doug Randall, que arredondou o assunto nos últimos dez anos para a Shell Oil. Com uma aposta de padrão ianque: ''Não estamos partindo do zero. Os desafios são agora mais da engenharia do que da ciência. Portanto, podem ser enfrentados e resolvidos na base do dinheiro. Uns US$ 11 bilhões por ano.''
A decisão política está tomada, garante Peter Schwartz, sócio da consultoria Monitor Group. Decisão política para uma questão política. A corrida para o hidrogênio no lugar do petróleo vai além da contingência energética e da conveniência ecológica. Virou imposição estratégica - a da segurança nacional pós 11 de setembro de 2001, o dia que ainda não terminou.
Peter Schwartz diz que o efeito Bin Laden está para o hidrogênio como o efeito Gagarin esteve para as botas prateadas de Armstrong e Aldrin valsando no talco tumular da Lua.
Sobre estar disponível em abundância em todo o mundo, o hidrogênio armazena energia como nenhuma outra fonte primária. A célula combustível no estágio atual tem tamanha eficiência energética em relação à gasolina que o combustível fóssil, de fonte finita, não terá como resistir às forças do megamercado quando em movimento.
Certo? Calma, minha gente, suspira Doug Randall. Por enquanto, a célula hidrogenada no automóvel custaria mais que o próprio. A substituição da frota mais energívora do planeta não se faria em menos de duas décadas - a partir da depuração do primeiro modelo economicamente viável.
E a biomassa? Schwartz deleta: não dá para reservar um hectare de milho no campo para cada automóvel na cidade.
SECOS & MOLHADOS
Falta muito - Montadoras de meio mundo estão há anos investindo nas engenharias do motor e do combustível. O mercado só fará essa opção se despontar veículo barato e com autonomia de pelo menos 500 km. Ah! Blindado contra evaporação e explosão. Sem esse padrão, não haverá uma rede nacional de abastecimento.
Showroom - Pelo sim, pelo não, General Motors, Ford e DaimlerChrysler programam para março, aqui em Nova York, um showroom de protótipos a hidrogênio. E não apenas de carros e vans. Também de ônibus e caminhões.
Lei de Say - Elas botam fé na chamada lei de Say: toda nova oferta contrata a própria demanda. Claro, se inovação dotada de vantagens comparativas evidentes, diria hoje Bill Gates. Ou não seria o contrário, como manda a lei de Keynes? Diria Bush: toda demanda, se realmente candente, contrata a própria oferta.
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