''A economia americana funciona como verdadeira mola. Ela ainda está comprimida, mas pronta para novo salto.''
John Snow, secretário do Tesouro dos EUA

Paradoxo americano

NOVA YORK A reativação da economia americana, já iniciada, aponta para um PIB de 3,5% este ano e para 4,5% no ano que vem. A projeção é do Departamento do Trabalho, agora de plantão, como nunca, na cabeceira do emprego acabrunhado. Falta um ano para a (re)eleição e o maior eleitor dos Estados Unidos ainda é o índice do desemprego (6,1%) e não propriamente o do PIB.

Truísmo? Para onde o índice da produção vai o índice do emprego não vai atrás? Certo. Ocorre que na opulenta economia dos US$ 10,4 trilhões, a dólar corrente, produto e emprego não são monofásicos. O nível de emprego é o primeiro que empaca quando a economia desacelera e o último que rebrota quando os negócios voltam a esquentar.

Ou como diz o economista Paul Rommer, citado ontem nesta coluna: ''A reação do emprego só ocorre na segunda onda de cada ciclo de retomada.'' Segunda onda que ele localiza só em 2005. Depois da eleição. O importante é que a descompressão da mola americana parece fato já consumado, na percepção de nove em cada dez cenaristas lotados em Wall Street.

Otimismo ainda maior é o do professor Gary Becker, Prêmio Nobel de Economia. Diz ele que a recuperação econômica, pós-bolhas, torres e traumas do triênio 2000/2002, documenta a tese de que os pesados investimentos em inovação tecnológica ao longo da década passada ainda estão em plena colheita da produtividade otimizada do capital e do trabalho. Exatamente quando se descortina no horizonte, segundo ele, uma nova explosão tecnológica dentro da atual revolução tecnológica.

Inventário da Forrester Research, citado por Gary Becker, deixou a área acadêmica embasbacada. A produtividade média do trabalhador americano cresceu 2,5% nos anos 90, bem acima da média histórica de 1,3%. Pois de 2000 a 2003, tempo de ressaca geral do sistema, tais ganhos subiram, para 3,1% ao ano.

Paradoxo americano. Ou será que não? Entre o plantio e a colheita há uma defasagem natural que vale tanto para espigas de milho como para ganhos de produtividade. Na grande onda, os ganhos estavam verticalizados no megabloco das empresas de tecnologia e nos núcleos TI das grandes corporações. Agora, os ganhos surgem compartilhados ao longo de cada cadeia produtiva. Incluído o vasto universo das pequenas e médias empresas do setor industrial e da poderosa seara de serviços em geral.

Tradução: 1) a demanda agregada reage do alto do excesso de oferta já instalada; 2) assim armada, essa reversão não inflaciona nem atiça os juros básicos em torno de zero; 3) azar do mercado de trabalho, comprimido pelo espalhamento horizontal da produtividade em pleno ciclo (curto) de vacas magras.

Secos & Molhados
Azar de Bush - Aderna-se de um festejado ciclo de PIB a 5% com desemprego a 4% para um ciclo de PIB a caminho de 5% com desemprego em torno de 6%. Azar de Bush. Essa passagem de 4% para 6% na taxa de desocupação geral queimou 2,6 milhões de vagas no setor industrial.

Sem retorno - Estudo da Alliance Capital Management revela que, do descarte total na indústria, 76% se deu por modernização das empresas e apenas 24% por estagnação dos mercados. Logo, esta retomada reatiça apenas um quarto da oferta de trabalho.

Migração - O estudo flagrou e mensurou a espetacular migração de empregos no interior da economia americana nas últimas três décadas (1970/1999). A produção real da indústria ficou 77% maior e o emprego, 22% menor. A economia rural cresceu 96% e o emprego encolheu 31%. Mas nos serviços (dois terços do PIB), o trabalho foi à forra, com expansão de 43%.

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