''Mesmo quando um governo rico comete asneiras, o mercado arisco concede-lhe o benefício da dúvida.''
Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia


Virada ainda gasosa


New York Salvo tropeção de última hora, a Nasdaq deve fechar outubro com valorização acumulada de 74% desde o fundo do brejo em outubro do ano passado. Ainda distante do Everest dos 5.000 pontos de fevereiro de 2000, véspera do estouro anunciado da megabolha de Wall Street.

A recuperação da bolsa virtual tem a ver com a própria convalescença das empresas de tecnologia, usineiras da ''irracional exuberância'' que recepcionou o advento da internet de mercado na segunda metade da década passada. Os investimentos das empresas americanas em TI & TC foram retomados este ano para uma nova escalada de produtividade do capital e do trabalho.

Com sobras para a Nyse, centenária bolsa da economia real, a virada da biruta para o mercado acionário americano (e mundial) tem a ver com a reversão das expectativas dos agentes econômicos e dos investidores movidos a ''aversão ao risco'' dentro de mercados de alto risco por vocação e necessidade. Reversão informada por um PIB americano que leva jeito de crescer acima de 3,5% ao ano nesta segunda metade de 2003.

Para as bolsas, interessa menos a quantidade do produto e mais a qualidade do resultado. Os lucros corporativos estão de volta, em paralelo com a expansão das vendas. Há que se dar desconto ao efeito Saddam, que atiçou o poderoso complexo industrial-militar, no primeiro semestre, com 47% de aumento em seus obtusos negócios.

Conta pontos igualmente para a virada de Wall Street a política keynesiana de Bush (que já manifestou o desejo de tomar um café da manhã com esse tal de Keynes) - a de rebaixar a carga tributária das corporações. Decisão otimizada pelo remorso monetarista do Fed de Alan Greenspan - que segura a taxa básica real de juros abaixo de zero (taxa nominal de 1,06% ao ano para uma inflação anualizada de 2,2%). Quando o juro nega fogo, parte da manada da renda fixa desloca-se para a renda variável. Faz parte.

O problema é que a retomada americana não tranquiliza os economistas e consultores fissurados em contas públicas. O neokeynesianismo improvisado de Bush transformou um superávit fiscal recorde em um déficit fiscal galopante. Que o diga a recente bateria de análises indignadas de Paul Krugman no The New York Times. Ele sustenta que o desajuste fiscal de Bush, perto de 5% do PIB, é digno de repúblicas bananeiras e embananadas nas mãos de políticos carreiristas, demagogos e populistas.

Outra não tem sido a censura emitida por Joseph Stiglitz, um Nobel, em palestras mundo afora, Brasil no meio. Ele avisa que a recuperação não se sustenta na perspectiva de um grave desajuste fiscal - capaz de catapultar o juro e o dólar.


Secos & Molhados

Dâmocles

A Lehman Brothers opera um modelo matemático chamado simplesmente de Dâmocles, o da espada na cabeça. Ele funciona como sistema de advertência prematura sobre a probabilidade de um país entrar em grave desajuste fiscal e financeiro. Essa espada virtual já está sobre a cabeça de Bush, Snow & Cia.

Sem grilo

Operadores de Wall Strett, cujos faróis de milha não passam da próxima esquina, juram aos investidores e aos formadores de opinião que o déficit americano é único. Primeiro: é financiado de fora para dentro. Segundo: credores estrangeiros fazem posição em dólar. E quem emite o dólar é o Tesouro devedor. Logo...

Ainda não

Pelo sim, pelo não, a recuperação ainda não bateu às portas do mercado de trabalho. O economista Paul Rommer explica: a reação do emprego só ocorre na segunda onda de cada ciclo de retomada. Segunda onda prevista só para 2005. Depois da eleição.

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