''O homem moderno é um espevitado animal de quatro rodas. Feito de quatro partes: cabeça, tronco, membros e automóvel.''

Carlito Maia (1924 - 2002), publicitário

Movido a crédito
A única linha de crédito que anda na linha ou quase na linha é a que transita pelos terminais de consumo do mercado automotivo. A infantaria das financeiras das montadoras entrou em 2003 com juros de 39,1% ao ano e estão agora pela média de 27,2%. Na média das financeiras ligadas a bancos, a coisa vai até 333,9% ao ano.

Freud explica? Nem Friedman. Esse par de taxas, apurado pela Anefac, dá o que pensar. A própria Anefac não explica e muito menos justifica o tamanho do ''spread'' das financeiras dos bancos no cotejo com o ''spread'' das financeiras das fábricas. Nem se questionam aqui os custos de captação dos bancos versus os custos (ou cursos) de captação das financeiras do setor automotivo. Não há justificativa alguma para tamanha disparidade.

Tem-se no mercado que as financeiras do ''crédito fácil'' operam sem a blindagem das garantias do mutuário quase anônimo, sem comprovação de endereço ou de renda. Nem sequer a garantia jurídica da alienação fiduciária do bem financiado. Que pode ser um sofá na sala ou uma receita na farmácia.

Por essa lógica, as financeiras das montadoras embutem baixo prêmio de risco porque a alienação do automóvel a prazo constitui uma garantia real. Bem, ainda assim não dá para aceitar a distância cósmica de juros de 333,9% nos bancos com juros de 27,2% nas fábricas ou nas respectivas concessionárias. A menos que o calote seja um negócio supimpa para as financeiras do crédito pessoal.

Como é que é? Perdem-se 17% na inadimplência da minoria e se ganham 150% ou 170%, sei lá, no prêmio de risco amoitado no spread cobrado da maioria dos pontuais. Por essa alquimia bancária, não é a usura que explica o calote; é o calote que justifica a usura. Ou se preferem: a febre é a causa da infecção.

Para José Brasil Ribeiro, diretor-executivo da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras, ''ainda há espaço para baixar um pouco mais os juros do segmento''. Até porque, lembra ele, o mercado está andando de lado e o grau de concorrência entre as marcas e respectivas financeiras é bem maior que o da plácida concorrência pactuada pelos bancos. Estes preferem competir nos serviços e nos produtos e não nos créditos.

A concorrência entre as financeiras das montadoras, que se manifesta igualmente em tempo de vacas gordas, acaba de receber o safanão de uma retumbante iniciativa da General Motors. Ela acaba de importar o sistema de leasing utilizado nos Estados Unidos. O comprador do carro zero dá 50% de entrada e fica dois anos sem amortizar o saldo, pagando apenas os juros prefixados no contrato. O esquema, vulgo ''smart leasing'', estimula a troca bienal do carango sem a quitação final do próprio.

É do espírito do leasing, diz o vice-presidente da GM, José Carlos Pinheiro Neto: ''Com ele, o carro próprio desloca-se do conceito de produto para o conceito de serviço.'' Faz parte.

SECOS & MOLHADOS
No garrote
O setor automotivo tem como escapulir do arrocho monetário por sua própria conta e risco. O que ele não consegue é desvencilhar-se do garrote tributário, caso único no mundo sobre rodas. Nem com a redução cosmética e transitória do IPI. Que termina em 30 de novembro.

Pode piorar
Nos cálculos da Anfavea, a reforma tributária em gestação no Senado, se mantidos o formato e o conteúdo da Câmara, vai fazer pesar ainda mais a cunha fiscal dos tributos indiretos. A matilha do ICMS, IPI, PIS e Cofins saltará de 25,7% para 31,2% nos ''populares'' de 1.000 cc. (dois terços do mercado interno).

Belo troféu
Nos modelos de até 2.000 cc. a tungada pulará de 28,9% para 34,3%. Acima de 2.000%, o torque vai de 34,2% para 39,1%. Sem contar a CPMF em cascata. Ignorando os efeitos multiplicadores do automóvel na economia (e na receita) em geral, o Fisco prefere tributar mais sobre menos. Troféu Asno de Ouro.
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