''Será mesmo um espetáculo de crescimento? Por enquanto, é crescimento do espetáculo.''
José Maria de Jesus, prestamista inadimplente



Cruz crédito!

Ufa! Os juros estão realmente em queda e apontam para a retomada do crescimento econômico pelo corredor polonês da estabilidade monetária e da austeridade orçamentária. As taxas das financeiras, que respondem pelo crédito fácil da baixa renda sem banco e sem fiado, entraram ontem no vácuo da redução de um vigésimo na taxa básica do Copom e recuaram, piedosamente, de 337,15% para 333,91% ao ano.

Médias apuradas pela Anefac, entidade nacional dos executivos de finanças e contabilidade. Sim, com metade da população passando a desfrutar de crédito sem garantia nem documento de 333,91% ao ano, o espetáculo de crescimento está garantido. O triste espetáculo de crescimento da inadimplência nacional bruta. Ou o crescimento do espetáculo da exclusão de mercado por privação de consumo.

Tanto mais porque, em setembro, nono mês de gestação, o governo Lula, que se confessa dormindo com dona Herança Maldita, acabou por dar à luz de lamparina um par de gêmeos: desemprego acumulado de 12,9% e queda de renda coletiva de 14,6% em 12 meses. Para satisfação da amásia dona Selic.

Sim, dona Selic está tranquila. Com desemprego recorde e com poder de compra da ninguenzada resvalando do pouco para o quase nada, o dragão do IPCA não terá a menor chance de voltar a ejetar os fogos da carestia pelas ventas. Ou pelas vendas. Para o equívoco acadêmico que nos governa há duas décadas, só o empobrecimento continuado da população, no rodapé do emagrecimento anoréxico do consumo, da produção, do emprego e do salário, é capaz de enjaular a inflação verde-amarela de enjôo.

Os economistas que decretam as escolhas de 47 milhões de famílias e bitolam as decisões de 7 milhões de empresas voltam a produzir um debate futebolístico em torno da redução de 1 ponto porcentual da taxa básica nominal - taxa real ainda de 10,4% ao ano. Como se dona Selic estivesse, realmente, da base à ponta, determinando o custo dos empréstimos bancários às empresas e às famílias.

Os intermediários financeiros divertem-se com esse desvio de rota traçado por acadêmicos que estão burocratas - gente que nunca na vida entrou numa fábrica ou nunca viu mais magra uma duplicata. Ah! O espetáculo de crescimento de um PIB que ensaia fechar o ano com expansão de 0,5% é digno de juros de 66,88% no desconto da dita duplicata. Ou de 64,78% no capital de giro.

Governo baixa os juros! Chamada estrepitosa do telejornal da noite. A ninguenzada suspira aliviada. Vem aí o Papai Noel com juros de 333,91% ao ano no crédito pessoal. A classe média, que não tem dívida, mas tem crédito, igualmente esquenta as canelas para a bolha do Natal. Ela ainda está pagando, segundo a Anefac, 182,20% no cheque especial e 227,46% no cartão de crédito. Ou cartão de cruz crédito.


Secos & Molhados

E agora, José?

Agora, o vice José Alencar, o do combate por dentro, sai pela tangente: ''Não discuto a decisão do Copom. Sei apenas que não voltaremos a crescer com juros despropositados para produção e consumo. O custo do dinheiro alheio continua duas ou três vezes maior que a taxa de retorno do capital produtivo.''

Não abusem

Ocorre que o governo teme por uma onda de remarcação de preços na farra de consumo contratada por essa redução da Selic de 20% para 19%. Tanto assim que, a pedido do presidente Lula, o ministro Palocci estará, esta noite, em cadeia nacional de televisão, brandindo o apelo cívico: remarcação, não!

E o vilão?

O mercado financeiro, posseiro da informação econômica no Brasil, projeta inflação de exatos 6,01% no ano que vem. Com o detalhe ofídico: com peso 30 na ponderação do IPCA, os preços administrados pelo governo (fora do alcance da Selic) terão alta aproximada de 13%. Sem palavra.

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