JOELMIR BETING
''O agronegócio não é estável como uma pedra. Ele tem de ser recriado todo dia como um pão.''
Corrado Margutti Filho, consultor
Militância premiada
Guarnecido pelos ministros Roberto Rodrigues, da Agricultura, e Luis Fernando Furlan, do Desenvolvimento e Comércio Exterior, o empresário Maurílio Biagi Filho, da Companhia Energética Santa Elisa, de Sertãozinho, SP, receberá o título de ''Personalidade do Ano'', terça-feira, em Nova York, da The Brazilian-American Chamber of Commerce.
Um dos líderes politicamente militantes do agronegócio brasileiro, Maurílio Biagi Filho foi eleito por um júri de notáveis para esta edição 2003 de uma láurea criada por Vicente Bonnard em 1970. O mesmo Bonnard que permanece até hoje na condição de reator da principal entidade encarregada de promover, desde sua base em Nova York, as relações de comércio entre Brasil e Estados Unidos. Papel idêntico ao que desempenha, entre nós, a Câmara de Comércio Americana (Ancham). Uma e outra com agenda quintuplicada em tempo de Alca ainda encrencada.
A escolha de Maurílio Biagi Filho tem a ver com os recentes arroubos de nossa economia rural - finalmente desperta em seu esplêndido berço tropical quente e úmido. A mesma láurea havia sido atribuída a líderes das cadeias do café e do suco: Horácio Coimbra (1972), José Luis Cutrale (1988), Sérgio Coimbra (1990) e Carlos Guilherme Fischer (1992).
O Grupo Santa Elisa, nascido no rodapé do canavial, pontifica hoje no desenvolvimento holístico dos negócios da biomassa: açúcar, álcool, bagaço (eletricidade), vinhoto (refertilização), genética bovina, cervejas (Kaiser), refrigerantes (Coca-Cola) e bens de capital. Dentro e fora do Brasil. Caso do projeto e construção de uma primeira destilaria de álcool carburante na Cuba de Fidel Castro, agora sem petróleo russo a preço simbólico.
Maurílio Biagi Filho antecipa à coluna o fio da meada de seu discurso no jantar de gala do Plaza Hotel, no qual será apresentado pelo ministro Luis Fernando Furlan: 1) afirmação do Brasil como maior potência agrícola ''no mundo dos nossos netos''; 2) empenho do setor privado junto ao governo Lula para a penosa costura de acordos agrícolas razoáveis nos fóruns da OMC, da Alca e da União Européia; 3) apronto geral do agronegócio brasileiro para o futuro megamercado global dos créditos de carbono usinados pelo Protocolo de Kyoto (o da reversão do efeito estuda).
Maurílio Biagi Filho dirá que nesta safra, que termina agora em outubro, a fração do álcool, da ordem de 14 bilhões de litros, para uma capacidade já instalada de 16 bilhões, já teria à disposição de empresas e de países movidos a petróleo e carvão, fósseis e sujos, uma oferta de crédito carbono da ordem de US$ 2,6 bilhões. Que tal?
Well, enquanto as sociedades energívoras emitem poluentes, o Brasil passa a emitir títulos de crédito carbono formatados na categoria de novo ''derivativo financeiro'' de bolsa, vulgo CER - Certificado de Emissões Reduzidas. Um mercado escritural que vai agregar valor, a custo zero, ao cada vez mais imbatível agronegócio verde-amarelo.
SECOS & MOLHADOS
Supersafra
A maior e melhor safra de cana de todos os tempos está sendo concluída agora na região Centro-Sul, tripulada por São Paulo. São 291,4 milhões de toneladas por sobre 5 milhões de hectares. No mesmo espaço, colheita 7,7% maior que a anterior. Ou 48 toneladas por hectare, com elevada concentração de sacarose.
Contrapé
A tiragem de açúcar alcança 24 milhões de toneladas, das quais 13,7 milhões colocadas lá fora. Onde o mercado, mais vendido que comprado, acumula queda de 22% nas cotações em dólar, com recuo de 47% no mercado interno em reais. Faz parte.
Alienígena
Presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), Eduardo Pereira de Carvalho se pergunta: ''Alca? Que bicho é esse? O açúcar foi excluído do tratado do Mercosul. E, como o Brasil delega sua voz ao Mercosul, o açúcar está banido também da Alca. Será que nosso açúcar vem do planeta Marte?''
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