''Os mercados interno e externo não são excludentes ou alternativos. Agora, como nunca antes, eles são complementares ou aditivos.''
Lester Turow, economista americano (citando Deng Xiaoping)

Estranho no ninho?

Congressistas americanos jogam a toalha: sem a adesão do Brasil, a Alca vai nascer morta em 2005. A idéia de que o bloco pode decolar sem o embarque do Brasil não passa de uma bravata da Casa Branca, admite nas entrelinhas um relatório do Serviço de Pesquisas do Congresso americano. Se interessa ou não ao Brasil pular fora dessa canoa de tantos furos - o mesmo documento sustenta que não.

Para os analistas que assessoram os deputados e senadores, o Brasil anda falando grosso não só por manifestação de soberania ''de um governo de esquerda'', cujo partido historicamente sempre andou de nariz torcido para a iniciativa americana da Alca. Sim, a Alca não foi solicitada pela América Latina. Foi inventada por Washington no vasto painel da ''pax americana'' pós-queda dos muros alheios.

De onde vem a ''intransigência'' brasileira do governo Lula, de resto esboçada no governo FHC? Para o Serviço de Pesquisas do Congresso, a coisa resume-se no grau de dependência do ''export drive'' brasileiro ao hipermercado americano. Das nossas exportações totais, os Estados Unidos recepcionam nada além de 22% na média dos últimos cinco anos. A fatia do elefante é da União Européia em bloco (29%).

No mesmo período, houve encolhimento da clientela da América Latina (incluído o colapso da Argentina). Espaço ocupado com sobras pela abertura de novos mercados para o made in Brazil na Ásia, no Leste Europeu, no Oriente Médio e na África. O relatório americano aponta para o ''enorme potencial'' de futuros acordos bilaterais do Brasil com a Rússia, a Índia e a China. Assunto para ser remoído, em Washington, em termos de estratégia global.

Já anexado pelo Nafta, o México têm no mercado no ''big brother'' nada menos e 84% do destino final de suas vendas totais ao Exterior. Passa da metade dos embarques o peso dos Estados Unidos para o Chile, a Venezuela, o Peru e o Caribe. Ou como dizia o ex-chanceler Celso Lafer: ''Para o Brasil, a Alca é uma opção e não um destino.'' Faltaria acrescentar: para o restante da América Latina, a Alca acaba sendo um destino e não uma opção.

Que não se perca na curva a dimensão do bloco. A união dos 34 países das três Américas (incluído o Caribe, exceto Cuba), arredonda 805 milhões de habitantes e totaliza, a dados e preços de 2001, um PIB de US$ 12,4 trilhões. As trocas dentro do bloco já passam de US$ 3,6 trilhões, com relevância do Nafta.

Com o detalhe: cerca de 45% do intercâmbio pan-americano é obra e raça das empresas transnacionais estabelecidas na região. Entre elas, empresas européias e asiáticas. E metade desse movimento corre na raia das relações de mercado cativo de matriz com subsidiárias e das subsidiárias entre si.

Secos & Molhados

Quem ganha - Quem terá ganho líquido com a Alca aqui no Brasil? Consultorias do ramo garantem vida mansa para o agronegócio tropical, celulose e papel, ramo têxtil (tecidos, couros, confecções e calçados), as usinas de aço, os donos da mineração e o setor automotivo (por concessão de mercados a partir de Detroit).

Quem perde - Entre os negócios na berlinda, a plataforma da petroquímica, química, bioquímica e química fina. Falta-nos escala. Outro não é o calcanhar-de-aquiles dos fabricantes de máquinas e equipamentos (bens de capital) e dos produtores de informática, eletrônica e eletrodomésticos (bens de consumo).

Em revoada - Há quem aposte em transferência de fábricas (e empregos) dos Estados Unidos para o Brasil. Repeteco do que ocorreu com o México no advento do Nafta. Fábricas americanas que, neste momento, estão migrando para a China e a Índia.

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