JOELMIR BETING
''O que se nota em nossa diplomacia comercial não é isolacionismo.'' Bem ao contrário, há mais demanda por Brasil do que oferta Brasil.
Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores
Desacordo anunciado
A quatro semanas da nova conferência da Alca, em Miami, Brasil e Estados Unidos continuam rangendo os dentes. A palavra da vez é a intransigência. Washington acusa Brasília de intransigente e Brasília acusa Washington de intransigente. Empate técnico.
Na percepção americana, o Brasil corre o risco de ficar rosnando sozinho. Com o adendo sibilino: dá para fazer uma Alca de bom tamanho sem a adesão brasileira. O prazo expira em 2005 e não há mais tempo a perder com impasses de caso pensado. Há coisas mais importantes em jogo do que produtos agrícolas, suspira o Tio Sam.
Na avaliação brasileira, a costura de um bom tratado para o agronegócio no interior da carpintaria comercial da Alca é o fator condicionante para uma agenda geral. Tudo o mais ficaria na fila indiana dos acordos condicionados. Entre outros, os mais cobiçados pelos americanos: propriedade intelectual, liberalização financeira, compras governamentais, serviços diversos.
O ministro Celso Amorim fala em ''redimensionamento'' da Alca. Em que sentido? O de uma construção fatiada, tijolo com tijolo num desenho lógico, parodiando Chico Buarque. ''O compromisso subjacente à negociação deveria ser o da perfeição e não o da urgência'', diz o ministro. É o que sugere a proposta brasileira dos ''três trilhos'', reafirmada no apronto de Trinidad e Tobago e endossada no âmbito do Mercosul.
Primeiro trilho: foco vertical na eliminação de entraves de comércio e de acesso a mercados. Segundo trilho: marco regulatório simplificado para o primeiro trilho aplicável aos 34 países do bloco. Terceiro trilho: transporte de temas sensíveis a diferentes países para o fórum global da OMC, pegando-se o bonde da Rodada de Doha.
A questão de fundo está no que parece ser uma fantasia política da retórica diplomática de sempre - a formação um tanto quanto forçada de blocos econômicos por sobre as identidades nacionais inalienáveis. Simplesmente não há como costurar e executar acordos multilaterais de caráter horizontal. Não se pode (nem se deve) tratar igualmente os desiguais. De resto, exigência do regime de decisão por consenso.
Todo tratado multilateral de comércio, regional ou global, completo ou fatiado, descobre-se enredado por constrangimentos políticos, sociais, jurídicos e culturais. Natural. Que o diga a via-sacra da União Européia dos 15, com moeda única para 12, a caminho de uma justaposição de 24. A própria Organização Mundial de Comércio não tem passado, até aqui, de uma clamorosa Torre de Babel. Tal como se viu em Seattle, em Doha, em Cancún.
A gestação da Alca padece da mesma sina. Se os Estados Unidos pretendem reprisar com a Alca a anexação obtida com o Nafta, podem tirar a águia da chuva. A menos que se mude o crachá do bloco com toda a América Latina de Alca para Naftalina.
SECOS & MOLHADOS
Tem Peso
O processo de globalização da economia corre com cinco cavalos no mesmo páreo do intercâmbio pactuado de bens e serviços: 1) país com país; 2) país com bloco; 3) bloco com país; 4) bloco com bloco; 5) todos com todos (OMC). Desde que o país tenha massa crítica para atuar nas cinco frentes. O Brasil tem.
Luz própria
O chanceler Celso Amorim diz que a penosa costura da Alca não desvia o Brasil da carpintaria de futuros acordos bilaterais (incluídos os Estados Unidos). Caso do nosso atual namoro com os três gigantes do planeta dos emergentes: Rússia, Índia e China. ''Há mais demanda por Brasil do que oferta Brasil'', garante o ministro.
Sem Mito
Para o chanceler, que pontifica na diplomacia comercial do Brasil há duas décadas, os Estados Unidos brandem o discurso do ''isolacionismo brasileiro'' para reavivar omito por eles criado: o da Alca abrangente. Que eles chamam de ''comprehensive''.
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