JOELMIR BETING
''A única coisa que Brasil e Argentina têm em comum é a moeda. Pela mediana recente do câmbio, um real está valendo um peso.''
Roberto Olsen, consultor imobiliário
Ainda desafinados
Nesta sua estada na Argentina, 19 viagem ao Exterior em apenas nove meses e meio (semana sim, semana não), o presidente itinerante do Brasil debateu com o presidente vacilante da Argentina a idéia de uma recauchutagem geral (e urgente) do Mercosul. Com um duplo objetivo diplomático: a) engrossar a voz desafinada do bloco para a conferência da Alca em Miami; b) pavimentar a estrada para uma virtual ampliação do Mercosul ao largo da ignição da Alca.
Penso que ficaria de bom tamanho, por enquanto, um pacto bilateral Brasil/Argentina. Os donos do Mercosul não falam a mesma língua, não remam na mesma direção, não dão liga na integração econômica e desfilam agenda de interesses nacionais diferenciados, quando não superpostos ou conflitantes.
O presidente Lula e o presidente Kirchner ainda pagam tributo ao noviciado. O lado brasileiro, por exemplo, está rachado por dentro na abrasiva costura de um ''pensamento único'' para a Alca, com sobras para o Mercosul. Que o diga a desavença palaciana em torno do nosso ambíguo desempenho no apronto para Miami, em Tobago.
Nossos ministros da extroversão econômica, Celso Amorim (Relações Exteriores), Luis Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e Roberto Rodrigues (Agricultura) divergem entre si no formato, no conteúdo, no objetivo e no ''timing'' da vasta carpintaria comercial aí pela proa. Problema nosso, sussurra o Tio Sam, entre dois sorrisos à sombra da cartola.
O problema da Argentina é bem maior que o da nossa crise de identidade. Os vizinhos ainda estão em estado comatoso na UTI do FMI. A prioridade primeira e única está na recuperação da saúde de uma economia esfarelada e de uma sociedade traumatizada. A questão externa é absolutamente secundária. Exceção, claro, do arranjo caloteiro com credores internacionais desavisados.
Ainda estrebuchado nas perdas de meio século em meia década, o organismo econômico emite sinais de convalescença a médio prazo. Só pode ser milagre. A ficção cambial que amoleceu a cabeça e anestesiou o corpo por exatos dez anos teve de ser banida na marra. A recessão purgativa cravou estacas na depressão coletiva. Ano passado, o PIB despencou 11% sobre o crescimento zero de 2000/2001. Agravado, não por uma deflação, mas por uma reinflação de 29%, nas águas turvas do ''overshooting'' cambial.
As estripulias pós-conversibilidade pétrea produziram cinco presidentes em 90 dias, dizimaram o ''efeito riqueza'' da poupança desdolarizada no tapa e culminaram, já neste governo Kirchner, com a tungada de 75% das aplicações em títulos cambiais das dívidas interna e externa. Meio milhão de investidores argentinos - eis o saldo das vítimas do calote com pinta de estelionato. Herança maldita é apelido.
SECOS & MOLHADOS
Luz no túnel
Sim, a Argentina ainda tem túnel, suspira o influente economista Rosendo Fraga. A chama de vela que cintila nas trevas surpreende. Do fundo do brejo, o PIB já reverteu 5%, desde janeiro. A balança comercial resvalou para o superávit. O dólar acomoda-se na faixa de 2,80 a 2,90 pesos. O calote está consumado, mas o FMI não lhe tirou a escada nem a brocha.
Cordilheira
A recuperação é mais que subir ladeira. É escalar a cordilheira. Com desemprego perto de 20%, o rescaldo do incêndio desvenda um cavernoso processo de ''desindustrialização''. Por obra e desgraça do câmbio mágico da década passada.
Tem lastro
Se já parou de piorar e ensaia melhorar é porque vale adaptar para a Argentina a mesma sentença da The Economist sobre o Brasil: ''Afinal, a Argentina não é um país doente. É um país bêbado. É diferente.'' Compete a Lula por aqui e a Kirchner por lá retirar a garrafa da mão do respectivo atleta. Atleta recupera-se.
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