JOELMIR BETING
''No futuro, o computador será um espaço e não mais um objeto. Bem, teremos de rever nossos conceitos de objeto e de espaço.''
Esther Dyson, consultora americana
De onda em onda
Se o novo celular, já no mercado, é um híbrido promíscuo de telefone, televisor, computador, arquivo, internet, agência bancária, ficha cadastral, análise clínica, estação de trabalho, sala de reunião, caixa de música e cinema portátil - prepare sua emoção para o advento da quarta geração. No mais tardar, em 2015.
Como é que é? Quarta geração, vulgo 4G? E cadê a 3G? Se a 3G, com tudo isso que já está por aí, ainda não nos disse a que veio, mal saiu da casca do ovo do projeto, falar-se em 4G para 2015 não seria mais um delírio dos ficcionistas de Hollywood? No mínimo, estar-se-ia diante de um canibalismo tecnológico sem paralelo: a 4G abortaria todos os retornos corporativos da 3G ainda em gestação.
Certo? O megamercado tem instinto de conservação. Ele aprendeu na hiperbolha do triênio 1997/1999 a jamais voltar a colocar o carro digital adiante dos bois chipados. Por enquanto, a 4G não passa de um conceito. Há que se dar tempo à 3G, já no projeto, a um passo do padrão. Projeto que custou às teles de meio mundo uma loucura em licitação e outorga. Só na Alemanha, US$ 43 bilhões pela licença ou pelo carimbo.
Esse mico, do tamanho de um godzilla, quase deletou a cadeia telecom/datam/pontocom/midiacom dos monitores da vida. Em certa medida, foi esse o espinho que furou a bolha da irracional valorização de mercado da mesma cadeia. Do que resultou, em especial para as teles, o pior dos mundos no triênio 2000/2002: endividamento na face oculta da Lua, amasiado com desvalorização de bolsa ainda no fundo do brejo. Com fio ou sem fio.
Eis que os CEOs e CIOs dos quatro elos dessa rede high tech estão reunidos, esta semana, em Genebra, exatamente para a apalpação técnica e política da 4G, ao lado de um novo inventário dos vazios e dos desvios da 3G. Fórum e feira Telecom World 2003, realizados a cada quatro anos pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência especializada da ONU.
Tanto no fórum como na feira, fabricantes, consultorias, investidores e academias pintam o futuro por ondas ainda em formação. Acompanho esses eventos por dever de ofício. No de 1987, só se falou numa tal de internet. No de 1991, tudo sobre o wireless. No de 1995, dá-lhe o mobile 3G já a bordo de um padrão compartilhado. No de 1999, também lá estive, do alto do meu analfabetismo tecnológico, para sentir os primeiros pruridos de um Telecosmo servido pela fibrosfera entrelaçada virtualmente pelo sem fio 3G e afins.
Nesta edição 2003, eles desfilam planos e sonhos no conceito da 4G para um primeiro projeto da 4G na próxima Telecom World 2007. Com o detalhe precioso: pela interconectividade absoluta que se aproxima, a UIT decidiu, quarta-feira, assumir a própria crise de identidade de base tecnológica. A futura edição ostentará o crachá, não mais de Telecom 2007, mas de Interativa 2007. Falou.
SECOS & MOLHADOS
No padrão
Com a 4G, haverá a convergência terminal de padrões paralelos ou superpostos para um padrão único (sic). Padrão único é truísmo. Se não é único não é padrão. E, sem padrão, não existe rede global. Padrão e rede compartilhados. Convergência em quatro movimentos: tecnológica, mercadológica, corporativa, patrimonial.
Letrinhas
Do tamanho de um ovo, com versão do tamanho de um livro, a 4G não passará da ponta do iceberg da interconectividade sem limite (''pervasing computing''). Mero biodigestor de coisas do gênero Wireless LAN, Wi-Fi, Hiper LAN/2, Home RP, GPS, GSM, TDMA, CDMA, VTC, VOD, HTML, XML, IP e toyabytes afins.
Pensata
Essa explosão dentro da revolução tecnológica vai produzir impactos ainda mais rápidos e profundos na economia e na sociedade. A avaliação desses impactos motivou a UIT a convocar, para novembro, também em Genebra, a primeira Cúpula Mundial da Sociedade da Informação.
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