JOELMIR BETING
''Querido Lula! A coisa está feia! Poucos pedidos! Vendo o trenó? Arranja-me um emprego por aí? Adoro vermelho e sou barbudo.''
a) Papai Noel, do cartunista Novaes (in Gazeta Mercantil)
Avisem o Saramago
Economistas, consultores e empresários estão divididos. Metade acha que vai dar para relançar a economia no ano que vem. Algo parecido com PIB de 3% a 3,5%. A outra metade pensa que ainda não está formada a massa crítica para tamanha investida. Ficaria de bom tamanho, no limite do que poderia ser feito, um PIB de 2%.
Única certeza (ou quase): nesta altura do calendário, dois meses e meio para a estréia de 2004, tem-se que o PIB deste primeiro ano do governo Lula não deve passar de 0,7%. Ou metade do PIB do último ano do governo FHC. Como a população brasileira cresce 1,4% ao ano, o espetáculo de crescimento, anunciado em julho, resultará em encolhimento de 0,7% da renda por habitante.
Como promover a retomada do crescimento econômico com estabilidade monetária e neutralidade fiscal? Sim, ainda neste primeiro mandato do presidente Lula. Haverá um segundo? Depende precisamente do crescer ou crescer no triênio 2004/2006.
Ocorre que o debate da retomada da economia tem 70% de psiquiatria e 30% de astrologia. Os cenaristas do primeiro grupo sustentam que tudo não passa de simples ''reversão de expectativas''. A ''crise de confiança'' já teria passado. Com ela, também o ''vácuo da auto-estima nacional''.
Até o poeta português José Saramago, do alto do Prêmio Nobel de Literatura, houve por bem colocar no divã nosso PIB verde-amarelo de anemia. Suspirou ele, segunda-feira, em São Paulo: ''Lula nunca conseguirá salvar o Brasil, se o Brasil não quiser ser salvo.''
Bem, nosso querido José Maria de Jesus, gari desempregado, faz o contraponto: ''O Brasil não conseguirá ser salvo, se Lula não quiser salvar o Brasil.''
Salvar como? Prêmio Nobel de Alquimia, pontifica o Zé Maria: ''O setor privado produtivo está duplamente asfixiado pelo déficit e pela dívida do setor público não produtivo. O déficit provoca a dívida que realimenta o déficit que realimenta a dívida. No déficit, pagamos tributos absurdos. Na dívida, purgamos juros obscenos. No déficit, o governo devora 37% da refeição coletiva. Na dívida, evapora 70% da poupança nacional. O Brasil quer ser salvo disso, senhor Saramago.''
Salvar como? O aparte é do professor Yoshiaki Nakano, diretor da nova Escola de Economia de São Paulo, da FGV: ''A retomada do crescimento sustentável ou duradouro terá de passar pela remoção cirúrgica, sem anestesia, dos três preços básicos que estão no lugar errado: tributos, juros e câmbio. Nenhuma economia prospera, sequer sobrevive, com preços básicos fora do lugar. A questão de fundo está em cortar gastos, impostos e juros.''
Portanto, a bola murcha do jogo está nos pés do governo Lula. Em tabelinha com o Congresso e com o mais poderoso partido do Brasil - o da bancada dos governadores. Que acaba de chutar a bola quadrada da reforma tributária para 2007. Avisem o Saramago.
SECOS & MOLHADOS
Ponto morto
O câmbio manual do mercado interno continua em ponto morto. Mas há quem jure, por todos os juros, que a primeira marcha já está engrenada. Diz Yoshiaki Nakano: ''Só pode ser a euforia dos conformados com o crescimento médio de 1,5% nos últimos cinco anos. Ou crescimento zero do produto per capita.''
Triste sina
Poupe-se o governo Lula do impasse nacional bruto. O enrosco é obra de pelo menos meio século. Ou desde quando o Estado brasileiro deu de dar passos bem maiores que as pernas. Mas o governo Lula também terá culpa em cartório se entender, à esquerda, que a exigência de uma descarga sanitária no Estado brasileiro não passa de uma frescura neoliberal...
Avicologia
No mais, a discussão acadêmica: retomada pela base do investimento ou pela ponta do consumo? Afinal, quem nasce primeiro: a galinha ou o ovo? Papai Noel acha que é o pintinho.
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