JOELMIR BETING
''A Argentina cresce e prospera só durante a noite. É quando seus políticos dormem, sem saqueá-la.''
Georges Clemenceau (1841-1929), político francês
Quem é o vizinho
Qual é a imagem que os argentinos têm uns dos outros? Por dentro, eles se consideram individualistas, no conceito cunhado pelo escritor Jorge Luis Borges (1899-1986), nos anos 50: ''Somos indivíduos e não cidadãos.'' No exterior, eles se sentem dignos da fama de ''arrogantes e picaretas''. Em especial, aqui no Brasil.
Pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop), de Buenos Aires, divulgada segunda-feira, informa: para 75% dos argentinos, três em cada quatro, ''somos todos individualistas''. Para 58%, ''somos todos arrogantes, esnobes, invejosos e espertalhões''.
Há todo um anedotário brasileiro sobre essa cultura do queixo empinado dos vizinhos. A sondagem do Ceop virou mel na sopa. Foi o que ouvimos de um comentarista de televisão, brandindo a pesquisa: ''Já imaginaram os argentinos posando de baixa estima? Só lhes falta agora uma confissão tácita de algum complexo de inferioridade. Até o Fangio acaba de ser ultrapassado pelo Schumy. Aceitarão eles que o Maradona não amarra as chuteiras do Pelé?''
Na mesma pesquisa, eles se consideram conservadores, um tanto quanto avessos à inovação na vida e no trabalho. Sentem-se desfalcados do ''espírito de empreendedorismo'', principal reator de americanos e, sem embargo, de brasileiros. Reconhecem isso.
Nos lares e nos bares, família, trabalho, esporte e política, pela ordem, são os assuntos prediletos. Com o adendo: tratam a política como futebol, o futebol como religião e a religião como política. E não é de hoje, fundo do poço da sinistrose nacional bruta. Há um livro na praça, lançado há um ano, dando a pista do que eles se perguntam há três décadas de treva política e de trauma econômico: ''Qué nos está pasando a los argentinos?''
De autoria do respeitado psicanalista Marcos Aguinis, o livro ousa no título: ''O atroz encanto de ser argentino''. Refiz a leitura da obra, traduzida entre nós pela Editora Bei. Estão antecipados nela os achados, agora, do Ceop. A questão de fundo resvala para os túneis da psicanálise e da antropologia social. Algo parecido, sobre nós, brasileiros, realiza o antropólogo Roberto Da Matta.
O fio da meada é precisamente o que o autor chama de ''desencanto coletivo pelo desencontro com o destino''. Os argentinos sempre apostaram no determinismo histórico da grandeza nacional. O desvio de rota teria ocorrido a partir da Era Perón. Na base do desvio, todo um fanatismo político vestido de politização superior.
Faltou-lhes refletir sobre a advertência do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), citando o peronismo (no rodapé de outros trágicos ''ismos''): ''O fanatismo emburrece o fanático. Seja ele o fanático da política, da religião ou do futebol. Os argentinos não estão politizados. Eles estão fanatizados. Nessa trilha, acabarão envenenados com a própria saliva.''
SECOS & MOLHADOS
Porosidade - A alquimia cambial do governo Menem dopou os 37 milhões de argentinos, segundo Aguinis. A bordo de um peso vestido de dólar, eles apagaram as feridas da tragédia político-militar com uma intemperança inaudita. Movida ao que o autor chama de ''riqueza de papel''.
Identidade - Colocando o país no divã, Aguinis analisa a gincana nacional: a da busca de uma identidade européia, mais que hispânica, mais que italiana. Ela dá carona a traços de valor anglo-saxão. Ou seja: esvai-se a própria identidade nacional de quem se considera argentino acima do bem e do mal.
Humildade - Nesta bancarrota de 1999/2003, o país baixou a bola e a crista. Os argentinos sentem hoje na carne que acabaram por perder quase cinco décadas em apenas cinco anos. Cá entre nós: não organizar e não enriquecer um Brasil pobre é fácil. Difícil é desorganizar e empobrecer uma Argentina rica. Eles conseguiram.
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