JOELMIR BETING
''Às vezes, acho que é quase um milagre o governo ter chegado aonde já chegou.''
José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil
Faróis de neblina
Duas notícias sobre o câmbio. Uma boa, outra má. Se boa ou se má, depende do lado em que se coloca cada um diante dessa bola de tantos lados: o de dentro, o de fora, o de cima, o de baixo, o da direita, o da esquerda, o do vendedor, o do comprador. Primeira notícia: o dólar não sobe mais. Segunda: o dólar não baixa mais.
O ajuste de mercado, já consumado, aponta para uma ''banda'' de equilíbrio que vai de dólar a R$ 2,90 a R$ 3,20. Com mediana, neste ano de Lula lá, de R$ 3,08, contra R$ 2,92 em 2002. Palavra de analistas do ramo, para os quais a taxa efetiva real, puxada desde a estréia do Real, não passaria, hoje, de R$ 2,72. Em assim sendo, há folga de desvalorização confortável para aquela mediana de $ 3,08.
Esse regime de estabilidade cambial não deixa de ser uma terapia coletiva. Lembram-se do vendaval de há exatamente um ano, dólar cravando o pico de R$ 3,93? A coisa deu-se em 27 de setembro, a uma semana do primeiro turno. Na véspera, o candidato Lula dissera, gratuitamente, pela televisão gratuita, que estava chegando a hora de o Brasil passar a pagar salários honestos para os trabalhadores e não juros absurdos para os banqueiros.
O importante é que a ''banda'' de mercado se tornou neutra para o atual processo de reversão inflacionária, que abre espaço para o processo igualmente já lançado de distensão monetária. Sem erodir a competitividade das empresas brasileiras de dentro para fora nem de fora para dentro.
Eis o que admite o boletim GV Prevê, divulgado nos jornais de ontem. Editado no Rio pela FGV/Ibre, o boletim amarra os principais indicadores para projeções atiradas na direção de dezembro de 2005. Uau! Que bola de cristal! Os cenaristas apostam, na ponta de dezembro, em dólar a R$ 3,00 em 2003, a R$ 3,23 em 2004 e R$ 3,41 em 2005. Anote-se.
Algo a ver com as previsões atualizadas toda semana pelo relatório Focus, do Banco Central. Nada menos de 117 bancos e consultorias financeiras (vulgo ''o mercado'') projetaram na semana passada dólar a R$ 3,10 no fechamento de 2003 e a R$ 3,35 no encerramento de 2004. Com média de R$ 3,11 este ano e de R$ 3,26 no ano que vem. O foco do Focus não alcança 2005.
A bonança cambial, segundo o GV Prevê, tem respaldo técnico. Acabou o medo Lula, o risco país já despencou 57% desde janeiro, o Brasil acaba de beliscar o superávit externo pela primeira vez em 11 anos, o crédito externo rebrotou aos borbotões, as múltis começam a reabrir os cofres e as gavetas e balança comercial ensaia limpar um saldo anual médio de US$ 21 bilhões no triênio 2003/2005.
Nas projeções do IPCA, os acadêmicos da FGV estão menos otimistas que os executivos de bancos, analistas de consultorias e autoridades monetárias. Eles projetam IPCA de 9,5% este ano, 7,8% no próximo e 5,5% em 2005. No PIB, enxergam na série do triênio 0,7%, 3,3% e 4%. Sem espetáculo de crescimento. O que nada impediria o crescimento do espetáculo na voz do presidente Lula.
SECOS & MOLHADOS
Vacas magras
Percebe-se que o governo Lula está a fim de não mais se comprometer com promessas de palanque. Enquanto o presidente jura por todos os juros que ''o tempo das vacas magras já passou'', o ministro José Dirceu suspira fundo: ''Se já tivemos nove meses de vacas magras, vamos ter outros nove meses de vacas magras.''
Para quem?
Vacas magras nos currais do Estado brasileiro. O ajuste fiscal severo, que se manifesta no superávit primário em torno de 5% do PIB, mais católico que o da encíclica papal do FMI, tem sido feito tanto por congelamento do investimento como por constrangimento do custeio. Neoliberalismo em estado puro.
Conta própria
A salvação da pátria estrebuchada está na ruptura das amarras da economia privada. Operação que tem de começar, necessariamente, pelo desmonte do garrote monetário sem nexo e sem juízo. Que há duas décadas asfixia a economia e embrutece a sociedade.
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