''Sem o Brasil do curto prazo, esqueçam o do longo prazo. Em país pobre, o futuro é hoje. Amanhã é tarde demais.''

Joaquim Falcão, diretor da Escola de Direito da FGV



De B2 ou B+ a Ba2 ou Baa3

De repente, 177,7 milhões de brasileiros surpreendem-se enjaulados por um certificado marciano B2 ou B+, de ressonância global. Situado a um ano-luz do AAA dos americanos e na poeira cósmica do BBB de chilenos e mexicanos. Ou de russos e indianos.

Que E.T. é esse? É a poderosa e charmosa indústria de classificação de riscos alheios, sentada nos próprios. Um oligopólio postado acima e ao largo do sistema financeiro global, constituído por três agências privadas, com poder maior sobre o mercado financeiro (o rabo chipado que abana o cachorro da economia real) que o de qualquer governo. Incluído o salão oval da Casa Branca de pasmo. Poder maior que o cacarejado pelo FMI, o pasmado.

Faz parte. Quando, nos anos 80, a revolução tecnológica da telecom/datacom/pontocom permitiu ao sistema financeiro dar a volta ao mundo a cada segundo (ele transporta bites e não átomos) a globalização veio à luz. Os derivativos explodiram e os riscos também. Que fazer? Contratar o aval subjetivo, como nunca antes, das agências classificadoras de riscos de crédito e afins (''rating'').

Exigência de gestores e de investidores de risco a bordo do capital volátil sem fronteira e sem bandeira. Chegado a lances de manipulação (sem risco) por sobre as regras da especulação (com risco). Agências encarregadas de, tirando o sono de governos e de empresas julgadas por telepatia, garantir o sono e o sonho da velhinha de Oklahoma ou do dentista de Inverness.

O oligopólio do mercado de riscos presumidos, municiado por bolas de cristal encharcadas de álgebra, é tripulado pelas americanas Moody's e Standard & Poor's e pela britânica Fitch. Com sobras para o Embi+, minuto a minuto, do JP Morgan.

E tome risco país e risco empresa por julgamentos à distância realizado por profissionais competentes, tanto mais porque ungidos pelos dons divinos da onisciência e da ubiquidade. Sabe lá o que é classificar riscos presentes e futuros de uma centena e meia de países e de quase 60 mil empresas espalhadas pelo mundo? E sem sair de Wall Street? Em especial, riscos de crédito assumidos por bancos e fundos?

Há exatamente um ano, era do Brasil o terceiro maior risco do mundo (para o capital volátil). Pelo pecado capital de realizar eleição presidencial aberta e franca, com sistema moderno, seguro e rápido de recepção e apuração de votos (bem melhor que o do AAA de Bush), o Brasil foi punido com risco país de 2.443 pontos, gatilho de um dólar a R$ 3,93, amasiado com juros de 67% para produção e de 114% para consumo e com preços no atacado fechando o ano na crista de 43%.

Até hoje pagamos a conta perversa dessa sinistrose importada. Juros na face oculta da Lua. Carga tributária no aclive. PIB de 0,5%. Desemprego recorde de 13%. Isso, sim, é risco Brasil.


SECOS & MOLHADOS

Privação

O pânico explodiu o risco que explodiu o câmbio que explodiu o preço que explodiu o juro que explodiu a dívida que explodiu o déficit que explodiu o risco que explodiu o pânico... O ajuste fiscal do estrago deu-se menos por remoção do supérfluo e mais por redução do essencial. Funcionários da embaixada em Paris estão em pé de greve, desde ontem, por falta de papel higiênico.

Enrolação

As agências classificadoras de risco avisam que não vão melhorar as notas da lição de casa do Brasil. Elas acabam de melhorar as notas do México, da Rússia, da Tailândia... Só falta melhorar a nota da Argentina.

Ingratidão

Com a bola de cristal das agências, gestores e investidores de risco perderam as calças e as cuecas nos calotes do México, da Ásia, da Rússia, da Argentina. Ou no estouro da megabolha de Wall Street. Eles não perderam nenhum tostão aqui no Brasil.

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