JOELMIR BETING
''O maior perigo da Alca mora em Brasília e não em Washington. Não podemos chegar a 2006 com créditos e tributos proibitivos.''
Antônio Ermírio de Moraes, empresário
Alca ainda gasosa
Na carpintaria da Alca, retomada esta semana em Trinidad e Tobago, ensaio geral para a conferência ministerial de Miami, em novembro, o Brasil coloca-se em rota de colisão não apenas com os Estados Unidos, mas também com os parceiros do Mercosul. Além do Chile, da Venezuela, da Colômbia e do México (anexado pelo Nafta).
Questão de fundo: tripulada pelo chanceler Celso Amorim, que é do ramo, a diplomacia comercial brasileira passou a emitir luz própria neste governo Lula. A tal ponto que ousou costurar e liderar o G-0 plus, que trombou de frente com a Torre de Babel da OMC, mês passado, em Cancún. A protuberância brasileira causou irritação entre os ricos e ciumeira entre os pobres.
O chanceler Celso Amorim é realista: ''O atual formato da negociação é um convite ao impasse, tal como a decisão por consenso na OMC. Dos 34 países da futura Alca, perto de 30 deles não têm os mesmos interesses do Brasil. Somos países diferentes no tamanho, na vocação e no estágio. É mais fácil ajustar um acordo bilateral do que sacar um acordo razoável de uma negociação multilateral necessariamente arrastada, como a da Alca.''
É o que se vê. Argentina e Uruguai não estão a fim de negociar posições em bloco com o Brasil. Nem mesmo de avançar no 4+1, o acordo bilateral Mercosul-Estados Unidos. Argentinos e uruguaios estão de olho gordo em algum acordo direto e restrito com os americanos. Atalho já cavado na região pelo Chile.
Enquanto Robert Zoellick, representante comercial dos Estados Unidos, reafirma que o Brasil foi o elo perdido (ou a ovelha negra) da conferência de Cancún, o ministro Celso Amorim prefere atribuir o gol contra da OMC a uma agenda com ''excesso de peso'', que teria abortado a nova tentativa de decolagem do tratado global de comércio. De resto, como disse outro dia, em Nova York, o presidente Lula: ''A fase do Brasil coitadinho já acabou e já foi tarde.''
O certo é que nossa posição nada tem de ambígua. Para o Brasil, como já dizia o ex-chanceler Celso Lafer, ''a Alca é uma opção e não um destino''. Se Washington quer deslocar a agenda agrícola e a querela antidumping da Alca para a OMC, o Brasil ousa dar o troco: que se desloque também para a OMC a bateria de ''assuntos sensíveis'' (para os americanos): investimentos estrangeiros, compras governamentais, propriedade intelectual...
O comentário é do ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento e do Comércio Exterior, um dos parteiros da Alca pelo setor privado brasileiro: ''Eles querem uma Alca light para a política agrícola e uma Alca heavy para a política industrial. Isso nos autoriza a exigir precisamente o contrário.''
Secos & Molhados
Bilateral?
A diplomacia brasileira continua fechada com o multilateralismo - e não apenas de comércio. O chanceler Celso Amorim capitula como ''solução medieval'' o que ele chama de ''iniciativas bilateralizantes'' acenadas por Robert Zoellick no artigo Os Estados Unidos não podem esperar.
Cortejado
O chanceler lembra que o acordo bilateral do Chile com os Estados Unidos é um modelo que não convém a um país com as nuances e as intenções do Brasil. Ele informa que há uma dezena de países interessados em acordos bilaterais com a gente: ''O caso é mais de uma demanda por Brasil do que de uma oferta Brasil.''
Novo modelo
Ainda ruminando a frustração de Cancún, a OMC cogita de um novo modelo de negociação multilateral. No lugar do consenso de 146 membros colidentes, haveria uma ''cláusula de exclusão'' para dissidentes. Quem optar por ficar de fora do acordado por maioria, que tenha bom proveito em carreira-solo.
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