JOELMIR BETING
''Nossa indagação é a mesma das torcidas de Corinthians e Flamengo: em que novo jogo vai começar a grande virada? Por enquanto, nada.''
Clarice Messer, diretora de Economia da Fiesp
O parto da façanha
Ministro do Desenvolvimento, Luis Fernando Furlan tem a resposta: a virada começou exatamente ontem, entrada de outubro. Por uma simples e boa razão: completou-se em setembro o ciclo biológico dos nove meses de gestação do governo Lula. Tempo adequado, pela própria natureza, para se dar à luz o rebento da retomada econômica com estabilidade inflacionária, neutralidade fiscal, popularidade interna e credibilidade externa.
Com efeito, na percepção coletiva, o Brasil parou de piorar e já começa a melhorar. Há robustos indicadores da reversão geral da sinistrose verde-amarela de hepatite C. Até o dólar, barômetro do piorômetro, trafega pelas quebradas de um mercado cambial, doentiamente cético, abaixo da barreira emocional de R$ 3,00. O danado não rugiu nem mesmo com o calote da Argentina aqui ao lado.
O certo é que nunca foi tão fácil ligar o motor de ignição da retomada. Primeiro, porque o ponto de partida é um PIB devagar, quase parando, abaixo de 0,5%. Segundo, porque a reativação do consumo das famílias, emparedado por queda real de 7,3% no poder de compra em 12 meses, pode pegar o atalho da ensaiada expansão do crédito bancário.
O consumo movido a crediário é um duplo reator da economia. Atiça a aquisição de produtos e serviços financiados e libera fatias do orçamento doméstico para outras demandas em diversos mercados. Não é farra de crédito. Empréstimos maiores a custos menores representam a grande ''reserva de potência'' para a economia brasileira, a mais arrochada do mundo. Decisão que não passa pela fornalha do Congresso. Ela se contenta com a caneta do governo, ainda enredado na cantilena do ''espetáculo de crescimento''.
Essa pressão de demanda induzida, na direção de um PIB de 3,5% no ano que vem, seria recepcionada pela capacidade ociosa das fábricas e dos serviços. No setor industrial, a Fiesp relata folga média de exatos 20%. A coisa vai de 9% no ramo de papéis a 31% no de móveis, passando por 15% nos têxteis ou 29% nos plásticos.
Margem em desuso na capacidade instalada funciona como duplo resseguro contra a rebrota da inflação de demanda. A pressão sobre a oferta é amortecida e o aumento da ocupação rebaixa os custos fixos por unidade de produto ou serviço.
Que não se perca de vista, na pavimentação da retomada, do Efeito Carrefour. Ou seja: a disputa cada vez mais feroz de uma clientela cada vez mais infiel é a maior trava da inflação brasileira nos últimos sete anos. Não é a Selic, ora, pois.
Produtores dos índices de preços e monitores das taxas de juros que tratem de ligar o desconfiômetro. É a competição, com modernização, que enjaulou a inflação no mundo inteiro na década passada. O problema é que, entre nós, quando os preços sobem, é inflação. Quando os preços baixam, é promoção. Assim não dá.
Secos & Molhados
Caranguejo
Dados consolidados do IBGE, nos jornais de ontem, revelam que o PIB do primeiro semestre, com deflator de 14,3% em 12 meses, emplacou crescimento real de apenas 0,3% sobre o mesmo período de 2002. Em relação ao avanço de 1,3% da população, temos um retrocesso de 1% no produto por habitante.
Baixo nível
A taxa de investimentos reprodutivos (na construção civil e na incorporação de máquinas e equipamentos em geral) não passou de 17,9% do PIB na virada do semestre. Foi o pior aporte de capital fixo dos últimos 10 anos. Ou desde 1993, ainda nos rescaldos da depredação collorida.
Com torque
O detalhe: para investimentos de 17,9%, dispomos de uma poupança interna de 21,2% do PIB, a maior desde 1997. Também por essa cruza de dados há poder de torque para a retomada. Com o lembrete: um PIB de 4% a 5% ao ano exige investimentos de 25% a 26% do próprio. Dá para encarar?
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