JOELMIR BETING
''A qualidade da negociação diplomática para tratar de um problema é inversamente proporcional ao alarido da mídia que ela provoca.''
Barbara Tuchman (1912-1991), historiadora americana
Carcinicultura na Alca
De repente, o Brasil se descobre também o maior exportador mundial de camarão. Por uma simples e boa razão: passamos a levar a sério a qualidade da produção do nobre acepipe, o camarão. Sim, camarão de cativeiro, vulgo carcinicultura. Onde acabamos de deixar no chinelo o Japão, a Espanha, a Tailândia e a China.
Sabe lá o que é dobrar a produção em confinado a cada 16 meses, já sacando 7 toneladas e meia por hectare, produtividade sem paralelo lá fora? Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão, Itamar Rocha coça a cabeça: ''Se melhorar, vai estragar. Já estamos colecionando os primeiros sinais do ranço protecionista nos Estados Unidos e no sudeste asiático.''
Não é para menos. Vamos embarcar mais de 60 mil toneladas este ano. Quer dizer: o camarão brasileiro já dá susto até na Alca ainda em gestação. Foi o que se comentou, semana passada, em Porto Seguro, no 13º Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca. Com embarques saltando de 7 mil para 60 mil toneladas, desde 1998. E com viés para 100 mil toneladas até 2006, ignição da Alca.
Produtores americanos acabam de articular uma primeira ação anti-dumping contra o camarão brasileiro - que estaria praticando preços abaixo dos custos deles... Ora, é exatamente isso. Estamos produzindo a custos menores. Vantagem comparativa nossa. E por ganhos de produtividade e não por práticas ambientais predatórias ou por trabalho escravo. Por hectare trabalhado, a carcinicultura nordestina gera o dobro de empregos da fruticultura irrigada.
O mercado americano responde por metade dos embarques brasileiros, de US$ 310 milhões. O governador baiano, Paulo Souto, já alertou Brasília e a embaixada em Washington para um eventual contencioso do camarão ainda antes das dores do parto da Alca.
Tanto assim, que o camarão verde-amarelo de orgulho pegou carona de última hora na agenda brasileira levada esta semana à reunião do Comitê de Negociação Comercial da Alca, em Trinidad e Tobago. Encontro destinado a fazer um ajuste fino para a conferência interministerial da Alca, marcada para a terceira semana de novembro, em Miami.
Tal como na OMC, também na orquestração da Alca a posição americana é meridiana: 1) vestir a camisa do liberalismo em produtos e serviços nos quais eles se consideram mais competitivos; 2) parafusar a armadura do protecionismo em caso de similares estrangeiros bem mais baratos e oferecidos. Tanto faz se açúcar, álcool, aço, celulose, confecções, calçados, móveis, suco, soja, frango, lagosta ou camarão. Ainda mais, se camarão de criatório sustentável e não simplesmente pescado ao acaso, na marra.
SECOS & MOLHADOS
Sentiu firmeza
Costurado e liderado pelo Brasil, o G-22 puxou o tapete da conferência ministerial da OMC, mês passado, em Cancún, e azeitou a posição brasileira para a próxima conferência ministerial da Alca. ''Finalmente, engrossamos nossa voz'', escreve um diplomata arredio, já de pijama.
Novos grandes
Observação idêntica é a do Le Monde, no editorial de sábado: a bordo do G-22, Brasil, China e Índia avisam às torres gêmeas do Atlântico Norte que ''os novos grandes estão chegando''. O Brasil de Lula concedeu-se o papel de ''líder da oposição'' nas mesas do multilateralismo ainda sem treino.
Hipocrisia
Secretário-geral da Unctad/ONU, o diplomata brasileiro Rubens Ricupero assina: a) o multilateralismo made in Usa é unilateralismo em estado bruto; b) o multilateralismo de europeus e russos é disputar com os americanos um diretório mundial dos velhos grandes. Estanque, seletivo, excludente.
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