JOELMIR BETING
''A violência na televisão é uma realidade intrínseca. A minha, por exemplo, só pega quando esmurro ela.''
Agamenon Mendes Pedreira, colunista
Gugubrás & Cia. Ltda.
Gugu, o Liberato, briga todos os domingos com Faustão, o intimorato. Consta que vem aí, recarregado, atravessando esse maniqueísmo televisivo, o pagodeiro Netinho, o coitadinho.
Uma baita briga pela audiência C, D & E, endereço de dois terços do mercado de massa de produtos e serviços de demanda horizontal. Algo parecido, segundo a AC Nielsen, com R$ 1 bilhão por dia. Alvo predileto das alquimias do crédito fácil para quem não tem banco na vida, mas tem bigode na cara: o mutuário de baixa renda. Bigode na cara premiado com juros de até 330% ao ano nas barbas do Banco Central de Lula.
Nada contra a batalha sem quartel pela audiência massiva. É do jogo. Ela tem como objetivo ótimo a melhor relação custo/benefício para o investidor publicitário, parceiro primeiro da telinha mágica. Ou seja: quantos consumidores em potencial, travestidos de televidentes fidelizados, estão a fim de tomar decisão de compra já na manhã da segunda-feira - ainda que sem emprego, sem dinheiro e sem destino. Mas com crédito anunciado.
Afinal, a televisão ao vivo e em cores é reator da chamada compulsão do consumo irrefletido, sem garantia de renda futura. A inadimplência de até 18% na temerária gestão de risco das financeiras (ou de até 11% no crediário direto das redes de varejo) estoura a partir da terceira ou quarta prestação. Todavia, coberta com sobras por obscenos prêmios de risco, amoitados nos spreads cobrados de quem paga tudo um dia, a grande maioria. Na média do Procon/SP, são spreads de 157% ao ano. Em sendo assim, até o calote dá lucro.
De fato, a grande maioria (82% dos prestamistas) paga tudo em dia. Uma pontualidade fio-de-bigode, feita de privação pessoal e de renúncia familiar ao consumo de qualquer outra coisa. Incluída a farmácia da esquina no genérico sem receita. Ou como suspira José Maria de Jesus, ascensorista desempregado: ''Pobre que é pobre não tem dívida. O que o pobre vibra é que tem crédito.''
Eis que o governo Lula, que é do ramo, solta as amarras do microcrédito, autoriza o desconto direto de prestações no contracheque dos salários, engatilha linhas diferenciadas e favorecidas para aposentados, aciona programas populares no Banco do Brasil e na Caixa Federal, articula o espalhamento nacional da renda mínima, libera fatias do Fundo de Garantia para outras demandas da família...
Um bom começo para a erosão da usura do crédito fácil made in TV, grande fiador de certas audiências movidas a baixarias. Uma pena que, no cardápio das responsabilidades entrecruzadas da enganação do Gugu, não se tenha contado até aqui com a intromissão de nenhum jovem togado do Ministério Público, em busca de 15 segundos de fama. Ele bem que poderia arrolar na acareação de primeira linha, neste ''case'', a cumplicidade de anunciantes e respectivas agências que patrocinam, sustentam e estimulam a guerrilha da torpeza pelo Ibope sem alternativa.
SECOS & MOLHADOS
Alternativa?
Se uma certa televisão funciona como lixeira, o povo acaba viciado em lixo. Então, não é a audiência que justifica o lixo. É o lixo que explica a própria audiência. De resto, videolixeira universal, com direito a meia dúzia de canais pornográficos em redes por assinatura.
Do direito
Na farsa do Domingo Legal (sim, legal) deu-se o desfrute abusivo de uma concessão pública que só tem feito por acumular a riqueza privada do próprio apresentador. É bom lembrar que a liberdade de expressão é um direito, não da televisão, mas da cidadania. Incluído o direito de não ser enganada por ela.
Tiro no pé
Patrocinada a R$ 146 mil por meio minuto de publicidade ou merchandising, essa porcaria desmoraliza a televisão, desacredita a propaganda e envergonha o jornalismo. Não é assunto para a Justiça Federal. É desafio para a ética do Conar - por onde flui o instinto de conservação de nossa indústria da comunicação.
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