''Quem decide, pode errar. Quem não decide, já errou.''

Herbert von Karajan (1908-1991), maestro austríaco



Sementes da discórdia

Mais de 170 mil famílias gaúchas estão sem folga neste fim de semana. Elas terão de acelerar providências para o plantio finalmente autorizado da soja transgênica, a partir de segunda-feira. Quando o filho mais velho cuidará de buscar na agência mais próxima dos Correios ou do Banco do Brasil o tal de Termo de Compromisso, Responsabilidade e Ajustamento de Conduta, sem o qual a família fica impossibilitada de lançar as sementes à terra prenhe.

Esse Termo de Ajustamento de Conduta, inventado pela MP do filho-da-nega-maluca do governo Lula, lembra o chamado Certificado de Acreditação Hospitalar, adotado em 1997 nos processos de avaliação de qualidade do sistema brasileiro de Saúde Pública. No caso da soja transgênica, a nova exigência burocrática passa a idéia de que estará tudo sob controle nesta largada do plantio.

Idéia reforçada, na chegada da próxima colheita, pela exigência suplementar da rotulagem da ameaçadora mercadoria. Se é que haverá capacidade de monitoramento de tamanha empreitada pelos exauridos órgãos técnicos do governo. Ou como suspira fundo o naturalista Fernando Gabeira, que está deputado federal (PT-RJ): ''Querem encarar um desafio do século 21 com cacife do século 19.''

Voltemos aos campos gaúchos, alvo preferencial da MP do constrangimento ideológico do PT. Cerca de 85% dos produtores de arrimo familiar (modelo que nada tem a ver com o padrão fundiário dos megassojicultores de origem gaúcha enraizados no Mato Grosso) já estavam decididos a replantar a soja transgênica nesta safra 2003/2004. ''Quem entrou nessa, não sai mais dessa'', garante o produtor cooperado Amaro Bortolotto.

Questão de glifosato, relata ele. Na média da última safra gaúcha, a transgênica exigiu, em glifosato, US$ 4,60 por hectare. A soja convencional teve de desembolsar US$ 62. A contabilidade da gauchada tem sido feita exclusivamente em dólar. Off course.

Glifosato? É o princípio ativo ao qual a soja transgênica se revelou resistente ou tolerante, deixando o torpedo bioquímico para a chacina das pragas da área. O mesmo glifosato bate ponto nos defensivos da lavoura convencional - mas só na técnica do chamado plantio direto (hoje abaixo de 25% da produção nacional).

Os fabricantes de defensivos (ou de agrotóxicos), nacionais e multinacionais, torcem o nariz para o avanço formal e/ou informal da transgenia (que eles chamam de canibalismo bioquímico). A soja responde por 38% do mercado nacional de agrotóxicos. Nesta safra recorde de 52 milhões de toneladas, o consumo de agrotóxicos declinou 17,5% (para uma colheita 26% maior). Culpa da soja transgênica. Nos herbicidas, ela se contenta com 3,5 litros por hectare. A convencional não deixa por menos de 7,8 litros.


SECOS & MOLHADOS

Omissão

Interessa ou não à saúde humana, à saúde animal e ao meio ambiente a redução do uso pouco disciplinado e nada patrulhado dos agrotóxicos? Sábado passado, na feira livre, engoli um morango que também tinha fruta natural. Era uma cápsula vermelha de um agrotóxico azul. Já houve alguma passeata contra isso?

Científico

O presidente Lula disse, em agosto, que a decisão seria científica e não ideológica. Poderia ser diferente? Bem, a MP acabou baixada no dia em que já rolava, no Recife, o 3º Simpósio Latino-Americano de Produtos Transgênicos. Clonado pelo 3º Congresso Brasileiro de Biossegurança.

Autoridade

Carta aberta ao presidente Lula, assinada por 708 cientistas reunidos no Recife, sustenta que a soja transgênica não faz mal a ninguém. O único prejudicado talvez seja o vice José Alencar. Que teve de empunhar a caneta em brasa da MP nesta 18 viagem ao Exterior, em 9 meses, do presidente Lula. Semana sim, semana não.

www.joelmirbeting.com.br

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