JOELMIR BETING
''Desde Cancún, o bilateralismo ensaia aposentar o multilateralismo. Pior: o bilateralismo leva jeito de ser atropelado pelo unilateralismo.''
Marcos Sawaya Jank, consultor
Os lados da bola
Representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick não deixa por menos: o Brasil é o principal responsável pelo fracasso da Torre de Babel que a Organização Mundial de Comércio (OMC) tentou erguer, há duas semanas, no balneário mexicano de Cancún.
Do alto de quem responde por um mercado que importa US$ 3,1 bilhões por dia (com déficit de US$ 1,2 bilhão também a cada 24 horas), o competente Zoellick serviu-se de artigo endereçado ao britânico The Financial Times para fazer o necrológio da chamada Rodada de Doha - tentativa de construção de um comércio mundial mais forte e mais justo em benefício de todos.
Escreve Robert Zoellick: ''Infelizmente, o impasse criado foi emblemático de uma cultura do protesto que definiu a vitória do não em termos de ganhos diplomáticos em vez de resultados econômicos.''
Que resultados econômicos teria o mundo ingrato deixado escapar pelos ralos da cultura do protesto? Entre outros, Zoellick aponta cinco: 1) desmonte do ocultismo e da corrupção nas operações alfandegárias; 2) controle da pirataria e do contrabando que dilapidam a arrecadação pública e subvertem a concorrência privada; 3) proteção da propriedade intelectual que estimula a inovação e o progresso; 4) montagem de um sistema de transferência a países pobres de remédios vitais a custos baixos; 5) expansão das redes globais de terceirização de fábricas, de serviços, de empregos, de salários e de impostos para países em desenvolvimento.
No prisma da autoridade americana, nem só de agenda agrícola deve respirar a negociação multilateral de regras justas e estáveis para as trocas comerciais entre os povos. Ocorre que, diz ele, o tal de G-21, articulado e liderado pelo Brasil, rasgou a agenda agrícola da OMC e disse não ao debate sobre temas outros igualmente relevantes.
Sob o título impositivo Os Estados Unidos não vão esperar, o artigo de Zoellick avisa que Washington vai acelerar acordos bilaterais e azeitar pactos diretos do Nafta com a União Européia. E provoca: a turma do não que trate de sobreviver com barreiras mútuas em prejuízo de todos. Ele informa: enquanto a tarifa média dos Estados Unidos é de 12% na agricultura e de apenas 3% na indústria, a tarifa média de proteção dos emergentes do G-21 é de 34% nos produtos manufaturados. E, nos produtos agrícolas, as médias vão de 37% no Brasil a 112% na Índia, passando por 62% no Egito ou 71% na Rússia.
Well, há um sofisma de caso pensado na adoção da métrica do protecionismo pela tarifação média. A média dos ricos é baixa porque eles importam de tudo de todos e se permitem o luxo de até zerar barreiras a produtos alheios para os quais ou são mais competitivos ou deles estão desfalcados. Em produtos nos quais se pilham não competitivos, aplicam tarifas de até 360%. Comigo não, violão.
S E C O S & M O L H AD O S
Ao contrário
Se Zoellick prefere as armas da média, inventário do professor Marcos Sawaya Jank, da USP, revela que a barreira média aplicada pelos Estados Unidos aos 20 produtos mais exportados pelo Brasil é de 39,1%. E a barreira brasileira aos 20 produtos mais exportados pelos Estados Unidos é de apenas 12,9%.
Ele já sabia
O comparativo acima leva o timbre do Instituto de Estudos do Comércio Exterior e Negociações Internacionais (Icone), presidido por Marcos Sawaya Jank. Ele integra um documento demolidor que o embaixador Rubens Barbosa entregou a Robert Zoellick, em janeiro. Com cópias para gabinetes da Casa Branca e do Congresso.
Martelando
No discurso na ONU, terça-feira, o presidente Lula reprisou a censura solene da ''hipocrisia comercial'' dos países ricos. Os que mandam fazer o que falam, mas não querem fazer o que mandam.
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